| COLÓQUIO “ESCRITORAS BRASILEIRAS EM PORTUGAL” NA BIBLIOTECA NACIONAL | |
| No âmbito das comemorações do Ano Brasil / Portugal, a Biblioteca Nacional de Portugal - BNP organiza no dia 11 de Março o colóquio “Escritoras Brasileiras em Portugal”, que integra ainda uma mostra bibliográfica sobre “Escritoras Brasileiras editadas em Portugal”.
O evento que conta com o apoio da Embaixada do Brasil em Portugal, do CLEPUL (Universidade de Lisboa), do CESNOVA (Universidade Nova de Lisboa) e do Mestrado em Estudos Brasileiros (FLUL-ICS), realizar-se-á pelas 17 horas, no Auditório da BNP, em Lisboa.
O colóquio conta com as intervenções de Arnaldo Saraiva (Universidade do Porto), Ana Maria Lisboa de Mello (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), Maria Aparecida Ribeiro (Universidade de Coimbra), Abel Barros Batista (Universidade Nova de Lisboa) e Alva Martínez (Universidade de Lisboa) que falarão respectivamente sobre: “A edição de escritoras brasileiras em Portugal”, “Ligações indissolúveis de Cecília Meirelles a Portugal”, “A sertaneja que não quis tradução: Rachel de Queiroz e a Livros do Brasil”, “Laços de Clarice” e “Um paraíso desabitado: a terra devastada da Utopia no teatro de Hilda Hilst”. A mostra, que será inaugurada no mesmo dia e estará patente até dia 4 de Maio, é coordenada por Isabel Lousada e Gina Rafael, e será dedicada às edições portuguesas de cerca de 70 escritoras brasileiras, existentes na colecção da BNP, representativas da produção da escrita feminina brasileira do século XVIII até ao presente, desde as “Aventuras de Diófanes, imitando o sapientisssimo Fenelon na sua Viagem de Telemaco” (1777), de Teresa Margarida da Silva e Orta (1712-1793), até à mais recente edição, de 2012, a obra “Nada a dizer”, de Elvira Vigna. Para mais informações sobre a programação, consulte aqui o site da BNP. através do Twitter de Cena Lusófona: @CenaLusofona | |
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10/03/2013
Colóquio "Escritoras brasileiras em Portugal" na BNP
Postado por Letícia Valle
08/03/2013
Almeida Faria sobre Ariano Suassuna
Ariano Suassuna
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Brasil
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Dom Sebastião
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literatura brasileira
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literatura portuguesa
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Portugal
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teatro
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| Almeida Faria (centro) e Ariano Suassuna (dir.) na palestra sobre Utopia, Messianismo e Sebastianismo. VIII Fliporto - Olinda, Pernambuco, Brasil. 16/11/2012. |
A espera cíclica de uma solução
O escritor português Almeida Faria conversou com o blog literário e nos falou da sua admiração por Ariano Suassuna, que estará ao seu lado numa das mesas da Fliporto e da força da expressão “sebastianismo” no mundo atual.
1 – O senhor poderia falar um pouco da sua impressão em relação à obra de Ariano Suassuna, que estará ao seu lado numa das mesas da Fliporto?
- A minha relação com a obra de Suassuna começou vai para meio século e vem progredindo por saltos e acasos. Em mil novecentos e sessenta e quatro, por um golpe de sorte, descobri num alfarrabista da Rua do Poço dos Negros, em Lisboa,Uma Mulher Vestida de Sol, sua primeira peça. O poético título, inspirado noApocalipse, levou-me a comprar sem hesitar aquela edição da Universidade do Recife, de capa amarelo torrado, com um sol vermelho baço sobre fundo acastanhado.
Tinha eu vinte e poucos anos, publicara dois romances e sonhava escrever teatro. Porém, no Portugal de então, havia um óbice capaz de desencorajar quaisquer veleidades teatrais: a imprensa periódica, o cinema e o teatro eram submetidos a uma férrea Censura Prévia. A ditadura de Salazar achava que, num país maioritariamente analfabeto, mais perigosos e potencialmente mais subversivos que os livros eram alguns espectáculos. Autores como Sartre, Peter Weiss e outros não eram encenáveis nem, nalguns casos, publicáveis. Assim se explica que boa parte da minha geração desconhecesse Suassuna até ao sucesso doAuto da Compadecida. O qual, graças às mil maravilhas do You Tube, vi no meu computador.
Por uma dessas coincidências que o surpreendente espectáculo da vida por vezes nos reserva, há anos viajei com Selton Mello, o Chicó pícaro da mais recente versão do Auto da Compadecida, num voo São Paulo-Rio. Ambos tínhamos assistido na véspera, em São Paulo, à antestreia de Lavoura Arcaica, filme baseado no romance de Raduan Nassar, amigo de longa data, em que Selton era o protagonista.
Das muitas peças de Suassuna, li mais três além da primeira: O Santo e a Porca,na qual Santo António, o casamenteiro de Lisboa ou de Pádua (tanto faz) é um excelente exemplo de „graça e astúcia cabocla“ (palavras de Carlos Drummond de Andrade); O Casamento Suspeitoso; e, enfim, A Pena e a Lei.
Em mil novecentos e sessenta e oito, sendo eu escritor residente nos Estados Unidos, palestrei em diversas universidades e numa delas conheci um bem disposto professor brasileiro que me contou como começara a sua fugaz carreira teatral encarnando a personagem de Joaquim na montagem inicial de A Pena e a Lei no Teatro do Parque, aqui ao lado.
Nos anos setenta comprei o Romance d´A PEDRA DO REINO e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, cuja epígrafe de abertura é uma frase atribuída a „DOM SEBASTIÃO, O DESEJADO – Rei de Portugal, do Brasil e do Sertão“. As maiúsculas do título e da epígrafe não são minhas, são da edição original que anotei e sublinhei.
Estas sucessivas aproximações às ficções de Suassuna dão-me a impressão de conhecê-lo já há décadas. Na verdade, nunca nos encontrámos.
- Em que medida a expressão “sebastianismo” ainda decifra o povo português ou mesmo o brasileiro, já que tivemos movimentos de sebastianismo ao longo da nossa história?
- Não sei se "decifra" ou não. Quanto aos portugueses, o sebastianismo é uma forma de messianismo, é a espera cíclica de uma solução vinda de fora, uma frágil fé ou esperança a que nos agarramos em momentos de aflição. D. Sebastião foi um pobre-diabo e uma figura trágica. O príncipe D. João, seu pai, morreu aos dezasseis anos, antes mesmo de o filho nascer. A mãe, Dª Joana de Áustria, filha do imperador Carlos V e portanto irmã de Felipe II, rei de Espanha, casou aos dezanove anos e ficou viúva menos de um ano depois. Cumprido o dever de dar um herdeiro à coroa portuguesa, regressou a Madrid onde fundou o mosteiro das Descalças Reais para ela própria e nele viveu até morrer. Nunca mais viu o filho. Já em criança cognominado o Desejado, órfão de pai e abandonado pela mãe, D. Sebastião foi educado pelos jesuítas e pela avó, Dª Catarina de Áustria, num caldo cultural que o levou a sonhar ser um herói, virgem como Galahad e imortal como outros cavaleiros da Távola Redonda. Tinha vinte e quatro anos quando, para escapar à obrigação de casar, decidiu sem mais nem quê ir atacar os “infiéis” no Norte de África Em Agosto de 1578, após uma viagem em centenas de barcos, à frente de um exército parcialmente formado por milhares de mercenários de toda a Europa, o incauto rei, perseguindo o “inimigo” que fingia fugir dele, avançou deserto a dentro. Sob um sol fulminante, com homens e cavalos sequiosos, exaustos, num lugar chamado Alcácer Quibir, os cristãos foram em poucas horas massacrados e o rei nunca mais foi visto. Alguns dos grandes do reino, distinguíveis pela riqueza das armas e armaduras, e pela raça e jaezes dos cavalos, foram poupados a fim de serem trocados por rendosos resgates. Como a nobreza devia morrer pelo rei ou com o rei, os sobreviventes fizeram constar que o rei desaparecera, que se tornara Encoberto e iria voltar. O país inteiro ficou à espera dele. Sem filhos nem irmãos, o seu sucessor mais próximo era o tio e primo em segundo grau, Felipe II, rei de Espanha e de um mundo “onde o sol nunca se punha”. Melhor que eu aqui em duas linhas, o poeta Hans Magnus Enzensberger conta aliás esta história sebástica, em discurso direto que me é atribuído, num dos brilhantes ensaios de Ach Europa! (A Outra Europa. Impressões de sete países europeus, com um epílogo de 2006, na edição brasileira da Companhia das Letras). O primeiro profeta do Encoberto foi o visionário Bandarra, um sapateiro nascido em Trancoso no ano em que os portugueses chegaram ao Brasil. Retomando a lenda céltica de um rei adormecido numa ilha envolta em névoa, publicou as Trovas anunciando a vinda do rei Encoberto. Naqueles turvos tempos de Contra- Reforma, boa parte da Igreja Católica preferia a santa ignorância, e quem conhecesse um pouco do Antigo Testamento era suspeito. Acusado de judaísmo, o sapateiro foi preso e levado, em 1541, numa das sinistras procissões que antecediam os autos-da-fé. Não se sabe porquê, escapou à fogueira. No século seguinte surgiu o missionário do sebastianismo, aquele luso-brasileiro Padre Vieira a quem Fernando Pessoa chamou “imperador da língua portuguesa”. Igualmente perseguido e preso pela Inquisição, valeu-lhe a proteção do rei, que o mandou em secretas e delicadas tarefas diplomáticas à Holanda e a Roma. Regressado a Portugal, teve o cuidado de deixar inédito o magno tratado milenarista e bíblico intitulado História do Futuro. Mais perto de nós, o mito encontrou o seu mais inspirado defensor em Fernando Pessoa, que põe na boca do Desejado a defesa da sua orgulhosa loucura:
Louco, sim, louco porque quis grandeza Qual a sorte a não dá (…) Sem a loucura, que é o homem Mais que a besta sadia, Cadáver adiado que procria.
No meu romance O Conquistador narro o aparecimento fantástico de uma criança fisicamente semelhante a D. Sebastião, na manhã enevoada de um dia de São Sebastião, vinte de Janeiro, dia do nascimento do rei. O incipit romanesco acontece a vinte de Janeiro de 1954, quatro séculos exatos, dia por dia, sobre a data em que nasceu o Desejado. Mas o meu protagonista tem outras ambições, e são outras as suas conquistas. Em manhãs de nevoeiro ouve-se aqui dizer que é um dia ideal para D. Sebastião voltar. E hoje mesmo, 3 de novembro, no Público, o mais prestigiado diário português, o acutilante cronista Vasco Pulido Valente termina assim o seu artigo de opinião sobre a desgraça financeira e política do país: “Se alguém encontrar D. Sebastião numa manhã de nevoeiro, por favor escreva para este jornal.”
Postado por Letícia Valle
06/03/2013
A poetisa mineira Adélia Prado, por Gabriel Chalita
CÂNDIDA ADÉLIA, PRADO DE POEMAS
Mestra na sala de aula, mestra em recontar a vida. Adélia Prado escreve como quem fala para a vizinha, numa conversinha mansa, descansada, cheia de vocativos, remetendo a pessoas que espera serem velhas conhecidas do leitor. É a tia Ceição, a lavadeira Tina do Moisés, a Dorita. Mestra na emoção.
Não aquela emoção grandiosa das tragédias gregas. Não a emoção espetacular das tragédias das tevês. Não. Descreve e narra as emoções pequeninas, que povoam os corações de todas as pessoas. Como quando a gente promete visitar alguém e não vai, e fica se sentindo constrangido, depois. Como quando a inquietação atinge um casal, que começa a perceber dificuldades na relação a partir de mínimas evidências - "Abel e eu estamos precisando de férias. Quando começa a perguntar quem tirou de não sei onde a chave de não sei o quê, quando já de manhã espero não fazer comida à noite, estamos a pique de um estúpido enguiço."
Foi com essa sabedoria que coroou a sua participação na Feira Literária Internacional de Parati, de 9 a 13 de agosto. Disse ela: "poeta é o que consegue perceber o ordinário, qualquer tolo repara o incomum".
Com essa placidez de rio Itapecerica, que banha a sua mineira Divinópolis natal, Adélia espicaça o leitor e o ouvinte a obter funduras de pensamento. "O transe poético é o experimento de uma realidade anterior a você. Ela te observa e te ama. Isto é sagrado. É de Deus. É seu próprio olhar pondo nas coisas uma claridade inefável. Tentar dizê-la é o labor do poeta."
Foi exatamente sobre isso que conversou a poeta Adélia Prado, na Festa Literária Internacional de Parati. Disse que a nossa vida ficou "esvaziada de realidade". Estava numa mesa de debates, apropriadamente denominada Bagagem, título de seu primeiro livro. A pergunta que se fazia era esta: que livro você levaria para uma ilha deserta? Ela escolheu "A transparência do mal" de Jean Baudrillard. E explicou, docemente: "Escolhi esse livro porque ele mostra que o individuo é um ser único. Sem o horror, não há a possibilidade do amor. Sem o mal não existe o bem".
Arrebatou platéias, em Parati, como arrebatara antes o patrício Carlos Drummond de Andrade, que vaticinava no Jornal do Brasil, em 1975, numa crônica, a senda de sucesso da poeta. Levou muita gente às lágrimas, pela comovente simplicidade com que abordou assuntos tão variados quanto amor e política. Sobre política, lamentou que os brasileiros não tenham um "consciente político coletivo", arma, segundo ela, "capaz de dar um jeito no País". Disse mais: "Nem mesmo juventude transviada nós temos, no sentido de que eles não têm uma via para se desviar dela".
Filosofou: "O que confere dignidade é aquilo que dá sentido à vida."
Falou de pedagogia: "Liberdade absoluta é liberdade nenhuma. Liberdade é ter compromisso com alguma coisa".
Falou de caridade: "Você já nasce experimentando uma orfandade. São Francisco fez um texto muito bonito em que diz 'eu, velhozinho miserável'. Isso é reconhecer a necessidade da ajuda".
Falou de inspiração: "As paixões humanas são as mesmas em Nova York, em São Paulo e na roça. Não tem importância ficar lá".
Lá quer dizer Minas Gerais. Lá, lugar do qual dizia Guimarães Rosa: "Minas são muitas. Porém, poucos são aqueles que conhecem as mil faces das Gerais".
Adélia Prado conhece. Porque tem alma de poeta, porque faz da poesia o pão espiritual, a fonte vital. Porque é uma mulher que tem inspiração para escrever isto: "Uma ocasião, meu pai pintou a casa toda de alaranjado brilhante. Por muito tempo moramos numa casa, como ele mesmo dizia, constantemente amanhecendo."
Adélia é poeta porque é cândida. A cândida Adélia, prado de poemas.
Gabriel Chalita
Mestra na sala de aula, mestra em recontar a vida. Adélia Prado escreve como quem fala para a vizinha, numa conversinha mansa, descansada, cheia de vocativos, remetendo a pessoas que espera serem velhas conhecidas do leitor. É a tia Ceição, a lavadeira Tina do Moisés, a Dorita. Mestra na emoção.
Não aquela emoção grandiosa das tragédias gregas. Não a emoção espetacular das tragédias das tevês. Não. Descreve e narra as emoções pequeninas, que povoam os corações de todas as pessoas. Como quando a gente promete visitar alguém e não vai, e fica se sentindo constrangido, depois. Como quando a inquietação atinge um casal, que começa a perceber dificuldades na relação a partir de mínimas evidências - "Abel e eu estamos precisando de férias. Quando começa a perguntar quem tirou de não sei onde a chave de não sei o quê, quando já de manhã espero não fazer comida à noite, estamos a pique de um estúpido enguiço."
Foi com essa sabedoria que coroou a sua participação na Feira Literária Internacional de Parati, de 9 a 13 de agosto. Disse ela: "poeta é o que consegue perceber o ordinário, qualquer tolo repara o incomum".
Com essa placidez de rio Itapecerica, que banha a sua mineira Divinópolis natal, Adélia espicaça o leitor e o ouvinte a obter funduras de pensamento. "O transe poético é o experimento de uma realidade anterior a você. Ela te observa e te ama. Isto é sagrado. É de Deus. É seu próprio olhar pondo nas coisas uma claridade inefável. Tentar dizê-la é o labor do poeta."
Foi exatamente sobre isso que conversou a poeta Adélia Prado, na Festa Literária Internacional de Parati. Disse que a nossa vida ficou "esvaziada de realidade". Estava numa mesa de debates, apropriadamente denominada Bagagem, título de seu primeiro livro. A pergunta que se fazia era esta: que livro você levaria para uma ilha deserta? Ela escolheu "A transparência do mal" de Jean Baudrillard. E explicou, docemente: "Escolhi esse livro porque ele mostra que o individuo é um ser único. Sem o horror, não há a possibilidade do amor. Sem o mal não existe o bem".
Arrebatou platéias, em Parati, como arrebatara antes o patrício Carlos Drummond de Andrade, que vaticinava no Jornal do Brasil, em 1975, numa crônica, a senda de sucesso da poeta. Levou muita gente às lágrimas, pela comovente simplicidade com que abordou assuntos tão variados quanto amor e política. Sobre política, lamentou que os brasileiros não tenham um "consciente político coletivo", arma, segundo ela, "capaz de dar um jeito no País". Disse mais: "Nem mesmo juventude transviada nós temos, no sentido de que eles não têm uma via para se desviar dela".
Filosofou: "O que confere dignidade é aquilo que dá sentido à vida."
Falou de pedagogia: "Liberdade absoluta é liberdade nenhuma. Liberdade é ter compromisso com alguma coisa".
Falou de caridade: "Você já nasce experimentando uma orfandade. São Francisco fez um texto muito bonito em que diz 'eu, velhozinho miserável'. Isso é reconhecer a necessidade da ajuda".
Falou de inspiração: "As paixões humanas são as mesmas em Nova York, em São Paulo e na roça. Não tem importância ficar lá".
Lá quer dizer Minas Gerais. Lá, lugar do qual dizia Guimarães Rosa: "Minas são muitas. Porém, poucos são aqueles que conhecem as mil faces das Gerais".
Adélia Prado conhece. Porque tem alma de poeta, porque faz da poesia o pão espiritual, a fonte vital. Porque é uma mulher que tem inspiração para escrever isto: "Uma ocasião, meu pai pintou a casa toda de alaranjado brilhante. Por muito tempo moramos numa casa, como ele mesmo dizia, constantemente amanhecendo."
Adélia é poeta porque é cândida. A cândida Adélia, prado de poemas.
Postado por Letícia Valle
16/01/2013
93º aniversário de João Cabral de Melo Neto a 09.01.2013
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João Cabral de Melo Neto (1920-1999)O universo poético de João Cabral de Melo Neto, autor inserido no Modernismo brasileiro, é principalmente, o da zona da mata e do sertão nordestino. Sua poesia remete o leitor constantemente às cidades de Olinda e de Recife com seus casarões antigos, seus mares e rios importantes como o Beberibe e o Capibaribe, e aos canaviais da zona da mata pernambucana. Mas também remete para a vegetação escassa da caatinga e à dor do agreste brasileiro. Por isso mesmo, dois de seus livros, Pedra do sono, de 1942 e A educação pela pedra, de 1966, trazem no título a idéia de pedra, símbolo da secura sertaneja e do solo pedroso da região. |
Postado por Letícia Valle
22/06/2012
Entrevista da Folha de S. Paulo com Ariano Suassuna (1991)

São Paulo, sábado, 26 de outubro de 1991
ARIANO
SUASSUNA
Após 10 anos afastado da literatura, o autor de
"Auto da Compadecida" está escrevendo novo livro
Marilene Felinto
Da equipe de articulistas
Alcino Leite Neto
Editor de "Letras"
Nomes como o da peça "O Auto da Compadecida" e do projeto artístico Movimento Armorial são com certeza mais conhecidos do que o de seu próprio autor, o escritor, dramaturgo e artista plástico paraibano Ariano Suassuna, 64.
Sem publicar desde 1971, e sem escrever oficialmente desde 1981, quando fez declaração pública de que se afastava então da literatura, Suassuna dedica-se hoje a um novo romance. Sobre o livro, prefere não falar ainda, para não "perder o impulso".
Também preferia não dar entrevista. Mas, conforme disse, "como vocês se dispuseram a vir de tão longe, isso me comoveu". Recebeu a Folha em sua residência no Recife, um desses casarões antigos e enormes, que já não existem mais.
Como seu personagem Pedro Diniz Quaderna, protagonista do romance "A Pedra do Reino" e de várias outras histórias, Suassuna é um idealista lúcido. Sempre fiel à originalidade de seu pensamento estético e político, ele não se importa em ser considerado por vezes fora de moda.
Continua, pelo menos em tese, um "monarquista de esquerda", e pela primeira vez revela a razão daquele seu afastamento da literatura em 81. Pronuncia-se também, com duras críticas, a respeito dos "devotos da modernidade liberal", na sua concepção encabeçados pelo presidente Collor.
Mas, sobretudo, conta histórias maravilhosas, dessas que não existem mais.
Folha - O livro que o sr. está escrevendo já tem título?
Suassuna - Não, ainda não. Eu só costumo batizar depois que termino.
Folha - O sr. pode falar um pouco sobre ele?
Suassuna - Olha, prefiro não falar. Eu só gosto de falar do que já fiz porque parece que falando muito sobre o que está fazendo a gente perde o impulso. Comigo acontece isso. É o mesmo motivo que me leva a não escrever em jornal. Eu escrevi em jornal um tempo, então parece que a gente vai dando saída aos fantasmas, às coisas que a gente tem dentro de si e perde a força para escrever a ficção, que é o principal. Que é o principal para mim.
Folha - O sr. não publica desde 1971.
Suassuna - É. Foi quando lancei "O Rei Degolado", mas ficou incompleto. O livro teria cinco partes como "A Pedra do Reino". Mas eu só escrevi duas e só publiquei uma, a primeira, que se chama "Ao Sol da Onça Caetana".
Folha - O sr. não estaria escrevendo a continuação de "A Pedra do Reino"?
Suassuna - Olha, se eu conseguir terminar, porque eu sou meio descrente das minhas forças, ele vai concluir "A Pedra do Reino". Eu sou um escritor muito demorado. Eu escrevo durante muito tempo, mas pouco. "A Pedra do Reino", eu levei 12 anos para fazer, não é? De 58 a 70.
Folha - A que o sr. atribui esta sua lentidão?
Suassuna - Escrevo lentamente porque escrevo à mão. Depois normalmente eu passo à máquina, corrijo à mão e ainda faço uma quarta vez. Escrevo e reescrevo. Tenho uma tendência de ser prolixo. E então preciso me policiar. Primeiro, porque deve ser assim, segundo porque livro muito volumoso o pessoal tem dificuldade de ler. Eu pessoalmente gosto. Uma das minhas leituras prediletas é "Guerra e Paz", de Tolstoi. Eu já li não foi menos de 15 vezes não. E, toda vez, quando vou chegando no fim, eu fico desgostoso. Pelo meu gosto seria maior ainda.
Folha - Por que o sr. parou de escrever "O Rei Degolado"?
Suassuna - Foi um processo curioso. O livro foi publicado primeiro no "Diário de Pernambuco", cada semana um capítulo. Dessa maneira escrevi duas partes. Aí, vi que podia publicar por partes. Então, publiquei a primeira em livro e iria publicar a segunda quando resolvi parar, porque não estava me satisfazendo mais aquela forma. Apesar de não parecer, eu sou muito exigente com a forma de escrever.
Folha - Mas o quê não satisfazia o sr. na forma?
Suassuna - Eu não estava satisfeito com o narrador, Pedro Diniz Quaderna, o mesmo de "A Pedra do Reino", a personagem principal. Notei que tendo apenas Quaderna como narrador, uma grande parte do meu universo interior ficava sem expressão. Então, senti necessidade de criar, digamos, um pólo oposto a Quaderna. Aí não dava mais não, quer dizer, "A Pedra do Reino" já tinha começado, já estava publicado. Tive que parar.
Folha - Nesse novo romance aparece um outro narrador?
Suassuna - Aparece. Os narradores são dois: Quaderna e esse novo.
Folha - O sr. também escreve poesia?
Suassuna - É. Aliás, a "Seleta" é único dos meus livros que tem, inclusive, poesia, que é uma face da minha personalidade à qual ninguém dá importância, mas eu dou. Eu acho que a fonte profunda de tudo o que eu escrevo, inclusive do teatro, do romance, é a poesia.
Folha - Mas o sr. tem um livro só de poesias?
Suassuna - Tenho. "O Pasto Incendiado", que nunca foi publicado.
Folha - Por quê?
Suassuna - Bom, uma parte da culpa é dos editores, a outra parte é minha. Os editores não se interessam muito por poesia não, principalmente quando eles sabem que a gente escreve outras coisas. Quando eles sabem que a gente escreve teatro, romance e conto, perguntam logo se não temos algo nesses gêneros, não é? Porque poesia vende pouco. Mas por outro lado a culpa é minha. Eu sempre achei que a minha poesia devia ser reelaborada de acordo com um conjunto maior, mais amplo, e então eu mesmo me resguardava um pouco. Porque, somente assim, com os romances e as peças, uma coisa lançaria luz sobre a outra. Porque minha poesia, diferentemente da prosa, é meio hermética.
Folha - O que o sr. quer dizer exatamente quando afirma que a poesia é a fonte profunda de tudo que escreve?
Suassuna - Para dar um exemplo, na "Pedra do Reino", num capítulo chamado "A Visagem da Onça Caetana", existe um trecho em que Quaderna está esperando para o interrogatório do Carregador e ele se senta numa espreguiçadeira, que é uma cadeira como essa onde vocês estão, e adormece. Então ele não sabe se foi antes do sono ou durante o sono ou depois que apareceu uma mulher com uns Gaviões e começou a passar o dedo na parede, de onde ia saindo um texto. Esse texto que está lá é um poema, apesar de estar escrito em prosa e é, no meu entender, a origem de toda a "Pedra do Reino".
Folha - Mas mesmo sua prosa é bastante impregnada da poesia oral dos cancioneiros populares, não é?
Suassuna - Ah! Sim, claro. A própria poesia narrativa dos folhetos são nessa linha. Isso já vem em mim dessa oralidade. Eu sou, de certa maneira, um ator frustrado. Nunca fui ator, primeiro, porque não sei decorar um texto, e depois porque não sei dizer um texto, tenho a voz baixa, fraca, feia e rouca. Eu não sei dar naturalidade e vida a um texto decorado. Se eu falar num palco é um desastre. Então, eu não podia ser um ator nunca. Eu digo em "O Rei Degolado", quer dizer, Quaderna diz, que ele é um misto de rei e de palhaço, sendo que ele acha que a salvação dele vem pela parte de palhaço, pela parte da coroa de flandres e da cara pintada do palhaço.
Folha - É o palhaço-rei, duas figuras são sempre presentes na sua literatura. Por que isso? O que o sr. tem de rei e de palhaço?
Suassuna - É verdade, estão presentes. Eu acho que todo mundo tem essa dicotomia, essa separação dentro de si. Mesmo que você não leve a sério nem o palhaço, nem o rei; ou se você leva a sério o palhaço e não leva o rei, como eu acho que acontecia com Cervantes. Cervantes não levou a sério a parte do rei que ele tinha dentro dele, que era o Quixote não é? Recebi uma influência enorme de Cervantes e de vários autores espanhóis, inclusive de Calderón de La Barca. Talvez até maior que a de Cervantes foi a de Calderón.
Folha - O sr. realmente escreveu uma peça baseada em "A Vida é Sonho", de Calderón de La Barca?
Suassuna - Escrevi. Chama-se "O Arco Desolado". Nunca publiquei porque não presta. Mas em 1952, se não me engano, eu concorri com ela ao Concurso do Quarto Centenário da Cidade de São Paulo. Ganhei menção honrosa. Aliás, eu soube depois, por fonte segura, que eu cheguei a ganhar, e depois me "desganharam". Mas voltando às influências, também fui muito influenciado por Santa Tereza de Ávila, mulher por quem eu tenho grande admiração. Da literatura russa recebi uma influência muito grande também, principalmente de Gorgol e Dostoievski. Agora, no que respeita ao Quixote, particularmente, eu noto uma diferença entre ele e Quaderna. É que D. Quixote enlouquece lendo os livros de cavalaria e acredita em tudo aquilo. Quaderna, não. O texto que apresenta bem claramente a diferença dele para o Quixote está em quando ele diz: "Minha vida cinzenta, feia e mesquinha de menino sertanejo, reduzido à pobreza e à dependência pela ruína da fazendo do pai". Quer dizer, ele sabe que a vida é triste, dura, feia, áspera, e lança mão do folheto e dos espetáculos populares como defesa. Mas tudo lucidamente. Ele é lúcido.
Folha - Haveria também uma influência de Macunaíma na construção do Quaderna?
Suassuna - Olha, alguém também falou disso, creio que Carlos Lacerda, logo que o romance foi publicado. Mas, eu vou lhe dizer uma coisa: a meu ver, pode haver uma identidade através das fontes. Fora daí tem uma coisa que a mim não me agrada em "Macunaíma", que é essa idéia do herói sem caráter. Aliás, eu comecei a reagir contra isso... Eu li "Macunaíma" muito tarde, por um problema pessoal. Eu não simpatizava com Mário de Andrade, nem simpatizo porque ele falou mal do meu pai por problemas políticos. Ele num livro, inclusive, deu uma informação falsa sobre meu pai, que ainda hoje se reproduz por aí.
Folha - Que informação foi essa?
Suassuna - Na Paraíba dos anos antes de 30, foi publicado um livro por um jornalista chamado Érico de Almeida. E era um livro sobre o cangaço, onde ele elogiava meu pai, que governou a Paraíba e combateu o cangaço, no tempo. Mário de Andrade afirmou que Érico de Almeida não existia, que era um pseudônimo de meu pai. O que não é verdade. Érico de Almeida eu não conheci, mas o filho dele sim. Fiquei com raiva de Mário de Andrade a vida toda. Quando já era adulto, pai de filho e já começando a ser velho, um amigo meu me emprestou "Macunaíma". Mas, então, o que me afastava e afasta mesmo de "Macunaíma" é a idéia do herói sem caráter. Eu tenho uma hostilidade especial a essa maneira de ver o povo brasileiro. Um camarada que vence a fome, a injustiça, a opressão, enfrenta os poderosos na pessoa de Antônio Moraes, enfrenta a aristocracia rural sertaneja, enfrenta a burguesia urbana sertaneja, através do padeiro, enfrenta a Igreja, enfrenta o padre, enfrenta o bispo, o sacristão e enfrenta até as potências celestes, com quem ele dialoga de igual para igual. Então, se ele é sem caráter, eu não sei quem é que tem caráter não.
Folha - Mas João Grilo enfrenta tudo isso com a mentira, não é?
Suassuna - Ele enfrenta com o que quiser, ele enfrenta com o que tiver na mão. Aqui no Nordeste existe um ditado que para mim é o que retrata João Grilo. É um ditado que diz: a astúcia é a coragem do pobre.
Folha - Frequentemente o sr. fala do circo. Parece mesmo que o circo é um paradigma do mundo para o sr.
Suassuna - É. É verdade. Exatamente isso. O circo é uma coisa fortíssima em mim.
Folha - Mais que o teatro?
Suassuna - Anterior ao teatro, porque, veja bem, a minha infância decorreu toda no sertão. Então, havia duas saídas para o cotidiano: o circo e o livro. Vocês não podem imaginar o que era para mim a chegada do circo. Era a abertura de um mundo novo, onde a rotina - como Quaderna com as cavalhadas e o folheto - era vencida. A gente saía do universo cotidiano e entrava num mundo mágico, onde tudo podia acontecer e onde tinha a presença, para mim fundamental, do palhaço e do mágico. Nos circos da minha infância você tinha mulheres lindíssimas - que deviam ser horrorosas, mas eu achava lindíssimas, não é? As equilibristas eram para mim a equivalência do que hoje são as bailarinas.
Folha - Sempre que o sr. fala do circo, fala do dono do circo. Por quê?
Suassuna - Antes disso, e para esclarecer, eu preciso falar da importância dos livros, principalmente dos livros de aventura. A gratidão que eu tenho pelos três ou quatro autores que me abriram o mundo da aventura, eu não pago. Foi principalmente a tradução feita por Eça de Queiróz de "As Minas do Rei Salomão". Eu achei aquele livro um encantamento. Outro foi "Scaramouche", de Rafael Sabatini. Um dos motivos da sedução que "Scaramouche" exercia e exerce sobre mim é que lá tem uma coisa que é quase um circo, que é uma companhia de teatro ambulante. O personagem se mete nas primeiras escaramuças de rua que prenunciavam a Revolução Francesa e é obrigado a fugir. Ele foge e encontra uma companhia de teatro ambulante, onde se engaja com um nome falso, e passa a ser ator. Então, é uma coisa que é ligada ao circo. Por essas influências é que em tudo o que eu escrevo, ainda hoje, a presença do circo é muito flagrante. Dentro do meu universo tem a mesma importância que dou a "Almas Mortas", de Gogol. O outro foi Alexandre Dumas, primeiro com "Os Três Mosqueteiros", que é um livro onde a presença de Cervantes está muito marcada. O D'Artagnan é um Dom Quixote gascão, não é? Agora, voltando ao circo e ao teatro, o que acontece é que no circo da minha infância o teatro também era encenado. O próprio circo era uma companhia ambulante de teatro.
Folha - Os chamados circo-teatros?
Suassuna - Exatamente. O primeiro circo que eu vi na minha infância chamava-se Circo-teatro Stringhini, que era o nome do dono. Parece que ele era italiano ou filho de italiano. Eu achava até muito estranho esse nome e tinha uma figura, era um sujeito extraordinário, que era o palhaço Gregório. Esse palhaço está ainda hoje dentro de mim. O narrador do "Auto da Compadecida" é um palhaço inspirado nesse palhaço Gregório, e vem da figura do cantador nordestino, que tem alguma coisa da oralidade do palhaço. Só que ele fala em verso. E ele representa o autor também, representa ainda o coro da comédia clássica.
Folha - E como foi a passagem de sua fascinação do circo para o teatro?
Suassuna - Quando eu entrei pela adolescência, aos 18 anos, entrei para a universidade e me tornei colega de um grupo de gente interessada em arte. Eu fui colega de turma de Aloísio Magalhães, de Hermilo Borba Filho e vários outros e juntos nós fundamos um teatro do estudante. E Hermilo, que exerceu também uma influência muito grande sobre mim, leu meus poemas, que eram os primeiros poemas que eu escrevia ligados ao romanceiro popular do nordeste, e disse que eu precisava conhecer Garcia Lorca e os autores espanhóis. Foi Lorca que me levou a Gongora, como Gregório de Matos me levou a Quevedo. Ele me colocou Calderón de la Barca na mão. E foi aí que eu tomei contato com aquela visão, pela primeira vez, do mundo como um teatro. Ele tem uma peça chamada "O Gran Teatro do Mundo", que me deu a noção do valor simbólico do teatro e, consequentemente, do circo. Além disso, a forma circular do circo me levava a crer que o mundo era assim também. E que a vida, então, era uma representação à qual nós éramos chamados. Por isso, o dono do circo ficou ora identificado com o autor de cada peça, ora identificado com o autor do mundo, que era Deus, para mim. Isso acontece exatamente no "O Grande Teatro do Mundo" porque o autor é Deus. Na primeira cena ele dialoga com outro personagem que representa o mundo. Então, vem daí essa presença do dono do circo, que é importante.
Folha - O sr. é muito apegado a sua infância, não?
Suassuna - Esse pegadinho meu com a infância vem do fato de que ela foi, no meu caso ao mesmo tempo atormentada e maravilhosa. Então, foi um tempo muito violento para os dois extremos. Eu passei por uma infância muito tormentosa com os acontecimentos de 1930, quando meu pai foi assassinado. Agora, ao mesmo tempo, uma infância rural, no meu entender, muito mais feliz e rica do que uma infância urbana, porque você veja, eu tinha as caçadas, que era uma coisa de que eu gostava muito quando era menino. Eu hoje não caço mais não. Me aconteceu um incidente. Para ser franco, o que eu gostava mais da caçada era a excursão, era o mato, era encontrar água. Era o encontro do próprio animal.
Folha - Que incidente foi esse que levou a desistir de caçar?
Suassuna - Um dia um amigo meu foi me contar um incidente que tinha acontecido com ele. Disse que vinha no mato e de repente apareceu um preá, um roedor desses, correndo assim... e entrou de baixo de umas macambiras, que é uma planta xerófita, da raça de abacaxi, sisal. Meu amigo se abaixou então para atirar no preá. Quando ele se abaixou e começou a procurar uma posição melhor, de repente entrou uma cobra, que já tinha picado o preá e que vinha atrás do preá, vinha no rastro dele. Meu amigo disse: "Ariano, quando a cobra avistou o preá ela se enroscou toda e abriu a boca. Parecia a imagem do demônio. Aí eu baixei fogo nela, matei". Foi então que eu percebi e me perguntei: a imagem do demônio era a cobra ou era ele? Desse dia em diante eu nunca mais cacei. Eu não tenho simpatia por esses exageros ecológicos que está havendo agora por aí não, mas nesse dia eu parei de caçar.
Folha - O sr. disse uma vez, em 1978, que nunca tinha saído do Brasil e que esperava nunca sair. Continua pensando isso ou já saiu?
Suassuna - Continuo. Não. Não saí, continuo aqui. Olha, vai lhe parecer até estranho, mas um mês atrás eu fui convidado a ir para o Marrocos, que é até um país que, se fosse ali em Alagoas, eu ia. Mas longe do jeito que é, não vou não. Tenho horror a viajar, eu não gosto de viajar. Para os Estados Unidos, nem que me ofereçam dinheiro eu não vou.
Folha - Por quê?
Suassuna - Veja bem, eu não tenho nada contra povo nenhum, certo? Agora, uma coisa é o povo e outra coisa é o papel que o país dos vários povos exerce no mundo. Eu sei que estou inteiramente fora de moda quando digo isso. Uma das coisas de que estou com horror no Brasil é a tal modernidade liberal. Deus me livre e guarde de qualquer modernidade liberal. Não tenho nada a ver com isso, tenho horror a isso. Porque atualmente os devotos da modernidade liberal estão querendo transformar o Brasil nos Estados Unidos de quarta categoria ou numa Alemanha de terceira.
Folha - Quem são esses devotos da modernidade liberal
Suassuna - Atualmente são chefiados por Collor, não é? A meu ver o Brasil não tem que ser Estados Unidos de segunda classe. Eu prefiro o Brasil parecido com a Etiópia, um país pobre, desgraçado, arrebentado, do que com os Estados Unidos. No diaem que o Brasil se transformar nos Estados Unidos, eu vou-me embora. Taí uma hora que eu saio do país. Vou para o Marrocos ou vou para a Etiópia. Eu prefiro o Brasil parecido com a Índia. Agora, eu não tenho nada contra o povo americano. Os Estados Unidos são hoje a polícia do mundo. São os gendarmes do mundo.
Folha - O sr. critica os Estados Unidos mas, no entanto, não se alinha ou não se alinhava também com o extinto Partido Comunista.
Suassuna - Não, não, não. Também sempre disse que iam terminar aliados. Tenho um artigo de 1974 em que eu já dizia: vão se aliar. Vão terminar se aliando os Estados Unidos e a União Soviética e vão formar uma aliança de rico contra pobre. E é o que está acontecendo. Viu agora na guerra do Golfo? Quer dizer, se aliaram todos os ricos contra um país deste tamanho do Terceiro Mundo. E a luta agora é essa. É a luta das metrópoles contra as aldeias. As aldeias são o Terceiro Mundo. Você não se iluda não porque vai ser assim. E, outra coisa, eu sempre fui socialista. Eu pertenço ao Partido Socialista Brasileiro. Entrei no partido porque hoje eu acho que tenho condições de ser socialista.
Folha - Mas quando o sr. escreveu "A Pedra do Reino" o sr. era um monarquista?
Suassuna - É verdade. Mas eu vou concluir o que eu estava dizendo: que sempre fui socialista, mas sempre tive horror ao marxismo. Eu acho o marxismo um pensamento estreito, castrador. Eu não me entendia com os comunistas brasileiros porque achava que eles agiam com faca de dois gumes, com pau de dois bicos. Quando eu denunciava o imperialismo americano e me batia contra a exploração americana no Brasil e coisa, eles batiam palma para mim. Mas quando eu dizia que o stalinismo era uma ditadura horrorosa, assassina, era considerado vendido aos americanos, a Wall Street. Eu sempre denunciei as duas coisas. Depois vem a abertura de Gorbatchev. Quando vi Gorbatchev criticando os Estados Unidos, fiquei entusiasmado, porque pensei que ele ia buscar uma nova forma de socialismo. Mas ele está se vendendo ao capitalismo, ele está se entregando ao capitalismo de mão beijada.
Folha - Como é que o sr. se aproximou do monarquismo do ponto de vista intelectual?
Suassuna - Eu vou explicar. A minha simpatia pelo regime monárquico começou muito cedo na infância, através da influência de um tio meu, Joaquim Duarte Dantas, monarquista e católico. Ele lia para mim trechos e mais trechos de um livro português escrito por um certo Antero de Figueiredo, que hoje está meio fora de moda, mas a quem ele admirava muito. E o livro de Antero era sobre d. Sebastião. Um dos motivos que me levavam para a monarquia era o motivo estético. A monarquia é mais bonita do que a república. Plasticamente, pelo ritual, pela liturgia, por tudo. Então, eu sou um escritor e um artista e eu tenho uma natural atração pela beleza, pelas coisas bonitas. Agora, por outro lado, a própria visão do povo brasileiro é uma visão mais monárquica do que republicana.
Folha - Como assim?
Suassuna - Pelo seguinte: porque você veja na oralidade, nos contos orais que estão por aí. Aliás, isso é do conto oral do mundo inteiro. Eu duvido que você, na sua infância, tenha travado conhecimento com um conto oral que começa assim: era uma vez um presidente da república. Não é verdade? Sempre se diz: era uma vez um rei.
Folha: O sr. tem esperanças que o Brasil volte a ser monárquico?
Suassuna - Não tenho não. Não tenho nenhuma perspectiva, estou falando em tese. Bom, aí você dirá, mas você ainda é monárquico? Não, eu não sou. Não é que eu tenha abandonado a monarquia não. A monarquia me abandonou.
Folha - Em que sentido?
Suassuna - Acho que do ponto de vista político, do ponto de vista do momento, do ponto de vista prático, eu coloquei a monarquia entre parênteses. Principalmente porque em 1981 morre d. Pedro Henrique, que era o herdeiro do trono brasileiro. E eu, apavorado, li que os dois filhos mais velhos dele eram da TFP, um movimento da extrema-direita. Então, se você olhar as datas, d. Pedro Henrique deve ter morrido no fim de julho ou princípio de agosto de 81. E a minha carta, quando eu entrei em crise e resolvi parar e abandonar tudo, foi escrita pelo desgosto causado por essas notícias, e ela é do dia 9 de agosto de 81. Foi o desgosto de que aquele meu sonho, que eu achava tão bonito, tivesse acabado. De um príncipe que tomasse não o lado do Brasil oficial, mas sim o lado do Brasil real, do povo de Canudos, que lutou e morreu por eles em Canudos. Então, eu sempre procurei me colocar do lado do Brasil real. Se a monarquia se revelava de extrema-direita, eu largava a monarquia, porque mais importante do que a forma de governo ou de regime, para mim era o povo, como continua a ser. Continuo na posição que eu estava, ela é que aderiu à TFP. Apoiada, inclusive por Delfim Neto. Eu tomo partido de tudo, entre Delfim Neto e a TFP eu sou do lado da TFP. Veja bem: de fato eu não estou nem com Delfim Neto nem com a TFP, eu estou com o povo de Canudos, mas, se é para escolher entre essas duas catástrofes, eu prefiro a TFP, porque é melhor. Pelo menos eles têm uma coisa que eu respeito. Eles têm seriedade. Eles acreditam. Só haveria um meio de eu apoiar de novo a monarquia: seria com um príncipe da era de Bragança que apoiasse o socialismo de Canudos com Miguel Arraes como primeiro-ministro.
Folha - Quando o sr. escreveu aquela carta em 81, aquela declaração pública de que estava abandonando a literatura, por que ao invés de somente se isolar e parar de escrever precisou comunicar isso ao público?
Suassuna - Olha, eu não pensei que iam dar tanta importância não. Parece que eu me julgo menos importante do que vocês me julgam. Eu fiz aquilo mais para me despedir dos leitores do "Diário de Pernambuco", onde estava crescendo e pensei que ia ficar naquilo mesmo. No outro dia eu tive que me esconder porque era revista, jornal, televisão tudo atrás, em cima de mim. Eu fiquei apavorado. Nunca pensei que tivesse uma repercussão daquela. Um escritor que deixa de publicar não é um acontecimento tão sério não.
Folha - Seu pai, que era governador da Paraíba, foi morto em outubro de 30 por causa dos efeitos da Revolução. Quarenta anos depois, no mesmo mês, o sr. inaugurou o Movimento Armorial. Este projeto não teria sido sua resposta à Revolução de 30, que o sr. não cansa de culpar pela morte de seu pai e também pelo processo de vulgarização do Brasil?
Suassuna - O Armorial foi uma resposta a esse processo de descaracterização e de vulgarização ao qual está submetida a cultura brasileira, que ainda está em curso. E a ligação que teve foi porque eu tentei fazer o lançamento no Movimento Armorial no dia 9 de outubro de 1970, porque é o aniversário da morte de meu pai. Mas o Movimento Armorial não foi lançado contra. Eu apenas queria que ele fosse lançado no dia da morte de meu pai. Então, teria indiretamente uma presença de vida. Em 70, quando a gente falava, era praticamente proibido, porque os movimentos que falavam em cultura brasileira eram todos de esquerda e tinham sido desbaratados pela repressão. O movimento que procurou se rearticular, depois daí, a meu ver, era um movimento equivocado e derrotista, que era o movimento tropicalista. Porque eles pegaram uma visão que os americanos difundiam na América Latina toda, do homem e de uma mulher latino-americanos ridículos. Eles pegaram Carmem Miranda e as rumbeiras de Cuba, juntaram num saco só e espalharam no mundo todo a imagem do homem latino-americano. Isso era uma bandeira americana de desmoralização e eles passaram a usar como estandarte próprio.
Folha - Para o sr. não existe um processo de descoberta da nacionalidade através do tropicalismo?
Suassuna - Não, pelo contrário... Eles compactuaram inocentemente. Eu acho que foi inocentemente.
Folha - O sr. gosta de Caetano Veloso?
Suassuna - Não, não gosto. Você quer saber o que eu gosto como música? Eu gosto de Villa-Lobos e Antonio Madureira, coordenador do Quinteto Armorial. Gosto de Guerra Peixe. Aí a pessoa vem dizer: mas ele é um grande poeta. Grande poeta brasileiro para mim é João Cabral de Melo Neto, Jorge de Lima e Janice Japiassu, a grande poetisa armorial do Nordeste. Eu não desço daí não. Meu nível é por aí. Bom, pode até parecer um elitismo de minha parte, mas é mesmo. O que a gente queria era procurar uma arte erudita brasileira em todos os campos.
Folha - Mas a quem se destinaria a arte Armorial? Ao povo?
Suassuna - Ah! Esse é um outro problema. Não sei. As pessoas dizem a mim: me diga, mas o povo não lê seu romance. Não lê mesmo não, está certo: Eu nasci numa sociedade em que o povo a isso não tem acesso. Nem por isso eu vou mudar a minha maneira de ser, porque aquele tipo de literatura que eu faço é fundamental para mim. Eu só posso expressar meu universo dessa maneira. É isso que me fascina, é isso que me apaixona e eu só sei criar movido pela paixão. Se eu fosse levar pela razão, iria escrever novela de televisão. Mas eu sou guiado pela paixão e o que me apaixona são essas histórias do povo: a "História do Cavalo que Defecava Dinheiro".
Um poema inédito do autor.
ABERTURA 'SOB PELE DE OVELHA'
Falso Profeta, insone, Extraviado,
vivo, Cego, a sondar o Indecifrável:
e, jaguar da Sibila inevitável
meu Sangue traça a rota deste Fado.
Eu, forçado a ascender, eu, Mutilado,
busco a Estrela que chama, inapelável.
E a pulsação do Ser, Fera indomável,
arde ao sol do meu Pasto incendiado.
Por sobre a Dor, a Sarça do Espinheiro
que acende o estranho Sol, sangue do ser,
transforma o sangue em candelabro e veiro.
Por isso, não vou nunca envelhecer:
com meu Cantar, supero o Desespero,
sou contra a Morte e nunca hei de morrer.
ARIANO SUASSUNA (1990)
Postado por Letícia Valle
21/06/2012
Gilberto Avelino - O Senhor de Todas as Marés

Gilberto Avelino – O SENHOR DE TODAS AS MARÉS, texto de Cláudio Guerra, publicado no jornal Folha de Macau. agosto/2002
Das pequenas e belas colinas de Natal, no velho Barro Vermelho, me assusta que os cantos dos bem-te-vis estejam sendo abafados pelos sons dos bate-estacas. São muitos nos últimos meses. Minha vista alcança sempre mais perto e tenho medo dos olhos espigões a vigiar-me mais e mais altos. Saudade das pequenas cidades em que morei. Tudo agora me chega pelo telefone. Até a morte. — Por obséquio, corre a notícia que o poeta morreu, você está sabendo de alguma coisa? Será mesmo verdade? Foi bem assim. A noticia chegou como indagação, dúvida, incerteza. Egoísta, eu que sempre soube que poetas não morrem, disse não saber nem que ele se encontrasse doente, quanto mais morrer assim, sem mais nem menos e ainda por cima num dia claro. Mais tarde veio a confirmação. O poeta decidira voltar ao seu “chão de sal” , dessa vez, em definitivo. E eu fiquei por algum tempo quietinho no canto escuro da sala a recordar nosso encontro há poucos dias na Capitania das Artes. Conversa breve, fiapinho de prosa quase formal, passageiros que éramos do Navio entre Espadas da poesia desnuda de Horácio Paiva, em noite de magia e alumbramento. Foi o meu último encontro com o poeta e ele estava muito feliz. Poeta de imaginação, sensibilidade e fantasia soube cantar sua aldeia buscando em cada beco e viela, em cada uma das “ruas compridas” dos “longos bairros” e em cada “gamboazinha” a poesia latente para nos revela-la, ora como um grito de alerta ou revolta, ora como música suave e enternecedora e sempre com a palavra límpida, precisa e certeira e a imagem cravada, indiscutivelmente bela e profunda. Recordo o carteiro de Neruda: “a poesia não é do poeta, mas de quem precisa dela”. Migrante às avessas, foi-me útil a poesia de Gilberto para compreender a região e o seu povo, a camaradagem rude de salineiros e pescadores e o coração escancarado por trás da carantonha. E agora, se o poeta considerou que estava na hora da volta derradeira, foi porque, cansado das andanças por este mundo cada vez mais desalmado e farto de desacertos, viu que era tempo de buscar refúgio entre rios, mangues, gamboas e o remanso das praias macauenses. Não em busca de um ancoradouro, porque poeta nunca lança âncoras, mas como senhor de todas as marés, guardião “de ribas, trapiches, rampas”, vigia das praias de Alagamar e Camapum, vigilante das dunas de Barreiras e Diogo Lopes e sentinela avançada do Pontal do Anjo e da praia de Soledade, a protegê-las da ganância e ambição dos homens que teimam destruir os sons da vida e tudo o mais que seja azul ou verde.
Fonte: http://www.obaudemacau.com
Postado por Letícia Valle
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