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22/01/2012

Viver Para Contar - Gabriel García Márquez






(...)
Agora que os ladros caem, agora que os galos galam,
Agora que alvando a toca as altas soam campanas;
E os zurros burram e que os gorjeios passaram,
E os assovios serenam e que os grunhidos porqueiam,
E que a aurorada rosa os extensos douros campa,
Perolando líquidas calhas tal qual eu lágrimo derramas,
E friando de tirito embora a abraza almada,
Venho suspirar meus lanços janelo de teus debaixos.

Não apenas introduzia a desordem por onde passava recitando as réstias intermináveis do poema, como aprendi a falar com a fluidez de um nativo de sabe-se lá onde. Acontecia comigo com frequência; respondia qualquer coisa, mas quase sempre era tão estranha ou divertida, que os professores se perdiam. Alguém deve ter-se inquietado pela minha saúde mental, quando numa prova dei uma resposta correta, mas indecifrável à primeira vista. Pelo que me lembre, não havia má-fé nessas brincadeiras fáceis que divertiam a todos.

MÁRQUEZ, Gabriel García. Viver para contar. Tradução de Eric Nepomuceno. Rio de Janeiro: Record, 2003, p. 160.

Poema de José Manuel Marroquín.

14/01/2012

Auto da Compadecida (I) - Ariano Suassuna



Epígrafes

O Diabo

Lá vem a Compadecida!
Mulher em tudo se mete!
......................................................................................

Maria

Meu filho, perdoe esta alma,
Tenha dela compaixão!
Não se perdoando esta alma,
Faz-se mais é dar gosto ao cão:
Por isto absolva ela,
Lançai a vossa bênção.
.....................................................................................

Jesus

Pois minha mãe leve a alma,
Leve em sua proteção,
Diga às outras que recebam,
Façam com ela união.
Fica feito seu pedido,
Dou a ela a salvação.

O Castigo da Soberba, auto popular, anônimo, do romanceiro nordestino.

                                                  *

Mandou chamar o vigário:
Pronto! o vigário chegou.
Às ordens, Sua Excelência!
O Bispo lhe perguntou:
Então, que cachorro foi
Que o reverendo enterrou?
Foi um cachorro importante,
Animal de inteligência:
Ele, antes de morrer,
Deixou a Vossa Excelência
Dois contos de réis em ouro.
Se eu errei, tenha paciência.
Não errou não, meu vigário,
Você é um bom pastor.
Desculpe eu incomodá-lo,
A culpa é do portador!
Um cachorro como esse,
Se vê que é merecedor!

O Enterro do Cachorro, romance popular anônimo do Nordeste.

                                         *

Foi na venda e de lá trouxe
Três moedas de cruzado
Sem dizer nada a ninguém
Para não ser censurado.
No fiofó do cavalo
Fez o dinheiro guardado.
..................................................................
Disse o pobre: Ele está magro,
Só tem o osso e o couro,
Porém, tratando-se dele,
Meu cavalo é um tesouro.
Basta dizer que defeca
Níquel, prata, cobre e ouro.

História do Cavalo que Defecava Dinheiro, romance popular anônimo do Nordeste.

O Auto da Compadecida foi encenado pela primeira vez a 11 de setembro de 1956, no Teatro Santa Isabel, pelo Teatro Adolescente do Recife, sob direção de Clênio Wanderley.

Personagens

Palhaço
João Grilo
Chicó
Padre João
Antônio Morais
Sacristão
Padeiro
Mulher do Padeiro
Bispo
Frade
Severino do Aracaju
Cangaceiro
Demônio
O Encourado (O Diabo)
Manuel (Nosso Senhor Jesus Cristo)
A Compadecida (Nossa Senhora)


Palhaço, grande voz

Auto da Compadecida! O julgamento de alguns canalhas, entre os quais um sacristão, um padre e um bispo, para exercício da moralidade.

                                                                                                  Toque de clarim.

Palhaço

A intervenção de Nossa Senhora no momento propício, para triunfo da misericórdia.
Auto da Compadecida!

A Compadecida

A mulher que vai desempenhar o papel desta excelsa Senhora, declara-se indigna de tão alto mister.

                                                                                            Toque de clarim.

Palhaço

Ao escrever esta peça, onde combate o mundanismo, praga de sua igreja, o autor quis ser representado por um palhaço, para indicar que sabe, mais do que ninguém, que sua alma é um velho catre, cheio de insensatez e de solércia. Ele não tinha o direito de tocar nesse tema, mas ousou fazê-lo, baseado no espírito popular de sua gente, porque acredita que esse povo sofre, é um povo salvo e tem direito a certas intimidades.

                                                                                           Toque de clarim.

Palhaço

Auto da Compadecida! O ator que vai representar Manuel, isto é, Nosso Senhor Jesus Cristo, declara-se também indigno de tão alto papel, mas não vem agora, porque sua aparição constituirá um grande efeito teatral e o público seria privado desse elemento de surpresa.
                                                                                           Toque de clarim.

Palhaço

Auto da Compadecida! Uma história altamente moral e um apelo à misericórdia.

João Grilo  

Ele diz “à misericórdia” porque sabe que, se formos julgados pela justiça, toda a nação seria condenada.

Palhaço

Auto da Compadecida! (Cantando.) Tombei, tombei, mandei tombar!

Atores, respondendo ao canto

Perna fina no meio do mar.

Palhaço

Oi, eu vou ali e volto já.

Atores, saindo

Oi, cabeça de bode não tem que chupar.

Palhaço

O distinto público imagine à sua direita uma igreja, da qual o centro do palco será o pátio. A saída para a rua é à sua esquerda. (Essa fala dará idéia da cena, se se adotar uma encenação mais simplificada e pode ser conservada mesmo que se monte um cenário mais rico.) O resto é com os atores.

João Grilo

E ele vem mesmo? Estou desconfiado, Chicó. Você é tão sem confiança!

Chicó

Eu, sem confiança? Que é isso, João, está me desconhecendo? Juro como ele vem. Quer benzer o cachorro da mulher para ver se o bicho não morre. A dificuldade não é ele vir, é o padre benzer. O bispo está aí e tenho certeza de que o Padre João não vai querer benzer o cachorro.

João Grilo

Não vai benzer? Por quê? Que é que um cachorro tem de mais?

Chicó

Bem, eu digo assim porque sei como esse povo é cheio de coisas, mas não é nada de mais.
Eu mesmo já tive um cavalo bento.

João Grilo

Que é isso, Chicó? (Passa o dedo na garganta.) Já estou ficando por aqui com suas histórias. É sempre uma coisa toda esquisita. Quando se pede uma explicação, vem sempre com “não sei, só sei que foi assim.”

Chicó

Mas se eu tive mesmo o cavalo, meu filho, o que é que eu vou fazer? Vou mentir, dizer que não tive?

João Grilo

Você vem com uma história dessas e depois se queixa porque o povo diz que você é sem confiança.

Chicó

Eu, sem confiança? Antônio Martinho está aí para dar as provas do que eu digo.

João Grilo

Antônio Martinho? Faz três anos que ele morreu.

Chicó

Mas era vivo quando eu tive o bicho.

João Grilo

Quando você teve o bicho? E foi você quem pariu o cavalo, Chicó?

Chicó

Eu, não. Mas do jeito que as coisas vão, não me admiro mais de nada. No mês passado uma mulher teve um, na serra do Araripe, para os lados do Ceará.

João Grilo

Isso é coisa de seca. Acaba nisso, essa fome: ninguém pode ter menino e haja cavalo no mundo. A comida é mais barata e é coisa que se pode vender. Mas seu cavalo, como foi?

Chicó

Foi uma velha que me vendeu barato, porque ia se mudar, mas recomendou todo cuidado, porque o cavalo era bento. E só podia ser mesmo, porque cavalo bom como aquele eu nunca tinha visto. Uma vez corremos atrás de uma garrota, das seis da manhã até as seis da tarde, sem parar nem um momento, eu a cavalo, ele a pé. Fui derrubar a novilha já de noitinha, mas quando acabei o serviço e enchocalhei a rês, olhei ao redor, e não conhecia o lugar em que estávamos. Tomei uma vereda que havia assim e saí tangendo o boi. . .

João Grilo

Um boi? Não era uma garrota?

Chicó

Uma garrota e um boi.

João Grilo

E você corria atrás dos dois de uma vez?

Chicó, irritado

Não sei, só sei que foi assim. Saí tangendo os bois e de repente avistei uma cidade. É uma história que eu não gosto nem de contar.

João Grilo

Conte, conte sempre, você está em casa.

Chicó

Você sabe que eu comecei a correr da ribeira do Taperoá, na Paraíba. Pois bem, na entrada da rua perguntei a um homem onde estava e ele me disse que era Propriá, de Sergipe.

João Grilo

Sergipe, Chicó?

Chicó

Sergipe, João. Eu tinha corrido até lá no meu cavalo. Só sendo bento mesmo.

João Grilo

Mas Chicó, e o rio São Francisco?

Chicó

Lá vem você com sua mania de pergunta, João.

João Grilo

Claro, eu tenho que saber. Como foi que você passou?

Chicó

Não sei, só sei que foi assim. Só podia estar seco nesse tempo, porque não me lembro quando passei. . . E nesse tempo todo o cavalo ali comigo, sem reclamar nada!

João Grilo

Eu me admirava era se ele reclamasse.

Chicó

É por causa dessas e de outras que eu não me admiro mais de nada, João. Cachorro bento, cavalo bento, tudo isso eu já vi.

João Grilo

Quer dizer que você acha que o homem vem?

Chicó

Só pode vir. É o único jeito que ele tem a dar. A mulher disse que o larga se o cachorro morrer. O doutor diz que não sabe o que é que o bicho tem, o jeito agora é apelar para o padre. Hora de se chamar padre é a hora da morte, de modo que ele tem de vir. Padre João! Padre João!

João Grilo, ajoelhando-se, em tom lamentoso

Lembra-te de Nosso Senhor Jesus Cristo, Chicó. Chicó, Jesus vai contigo e tu vais com Jesus. Lembra-te de Nosso Senhor Jesus Cristo, Chicó.

Chicó

Que latomia é essa para o meu lado? Você quer me agourar?

João Grilo, erguendo-se

Ah, e você está vivo?

Chicó

Estou, que é que você está pensando? Não é besta não?

João Grilo

Você disse que hora de chamar padre era a hora da morte, começou a gritar por Padre João, eu só podia pensar que estava lhe dando a agonia.

Chicó, depois de estender-lhe o punho fechado

Padre João!

João Grilo

Padre João! Padre João!

Padre, aparecendo na igreja

Que há? Que gritaria é essa?

Fala afetadamente com aquela pronúncia e aquele estilo que Leon Bloy chamava “sacerdotais”.

Chicó

Mandaram avisar para o senhor não sair, porque vem uma pessoa aqui trazer um cachorro que está se ultimando para o senhor benzer.

Padre

Para eu benzer?

Chicó

Sim.

Padre, com desprezo

Um cachorro?

Chicó

Sim.

Padre

Que maluquice! Que besteira!

João Grilo

Cansei de dizer a ele que o senhor não benzia. Benze porque benze, vim com ele.

Padre

Não benzo de jeito nenhum.

Chicó

Mas padre, não vejo nada de mal em se benzer o bicho.

João Grilo

No dia em que chegou o motor novo do major Antônio Morais o senhor não benzeu?

Padre

Motor é diferente, é uma coisa que todo mundo benze. Cachorro é que eu nunca ouvi falar.

Chicó

Eu acho cachorro uma coisa muito melhor do que motor.

Padre

É, mas quem vai ficar engraçado sou eu, benzendo o cachorro. Benzer motor é fácil, todo mundo faz isso, mas benzer cachorro?

João Grilo

É, Chicó, o padre tem razão. Quem vai ficar engraçado é ele e uma coisa é benzer o motor do major Antônio Morais e outra benzer o cachorro do major Antônio Morais.

Padre, mão em concha no ouvido

Como?

João Grilo

Eu disse que uma coisa era o motor e outra o cachorro do major Antônio Morais.

Padre

E o dono do cachorro de quem vocês estão falando é Antônio Morais?

João Grilo

É. Eu não queria vir, com medo de que o senhor se zangasse, mas o major é rico e poderoso e eu trabalho na mina dele. Com medo de perder meu emprego, fui forçado a obedecer, mas disse a Chicó: o padre vai se zangar.

Padre, desfazendo-se em sorrisos

Zangar nada, João! Quem é um ministro de Deus para ter direito de se zangar? Falei por falar, mas também vocês não tinham dito de quem era o cachorro!

João Grilo, cortante

Quer dizer que benze, não é?

Padre, a Chicó

Você o que é que acha?

Chicó

Eu não acho nada de mais.

Padre

Nem eu. Não vejo mal nenhum em se abençoar as criaturas de Deus.

João Grilo

Então fica tudo na paz do Senhor, com cachorro benzido e todo mundo satisfeito.

Continua...

Fonte:
Suassuna, Ariano de. Auto da Compadecida.30ª edição. Editora Agir: Rio de Janeiro, 1996. p. 15-17; 19; 22-34.








  






09/01/2012

The Whale Rider (2003)


Parque das Esculturas - Fazenda Nova/PE


tu_


tu

acima de nós
as nuvens
caminhamos
sobre água

somos
princípio e fim
nada
mais importa
 

(António José Cravo)

ahcravo.wordpress.com
 
 
 

Parte III, Cap. 49 - Como um Romance


49

(...)
 Onde encontrar o tempo para ler?
 Grave problema.
 Que não é um só.
 A partir do momento em que se coloca o problema do tempo para ler, é porque a vontade não está lá. Porque, se pensarmos bem, ninguém jamais tem tempo para ler. Nem pequenos, nem adolescentes, nem grandes. A vida é um entrave permanente à leitura.
 — Ler? Queria muito, mas o trabalho, as crianças, a casa, não tenho mais tempo...
 — Invejo você por ter tempo para ler! E por que é que essa aqui que trabalha, faz compras, cria filhos, dirige seu carro, ama três homens, vai ao dentista, muda na semana que vem, encontra tempo para ler, e esse casto celibatário que vive de rendas não?
 O tempo para ler é sempre um tempo roubado. (Tanto como o tempo para escrever, aliás, ou o tempo para amar.)
 Roubado a quê?
 Digamos, à obrigação de viver.
 É sem dúvida por essa razão que se encontra no metrô — símbolo refletido da dita obrigação — a maior biblioteca do mundo.
 O tempo para ler, como o tempo para amar, dilata o tempo para viver.
 Se tivéssemos que olhar o amor do ponto de vista de nosso tempo disponível, quem se arriscaria?
 Quem é que tem tempo para se enamorar? E no entanto, alguém já viu um enamorado que não tenha tempo para amar?
 Eu nunca tive tempo para ler, mas nada, jamais, pôde me impedir de terminar um romance de que eu gostasse.
 A leitura não depende da organização do tempo social, ela é, como o amor, uma maneira de ser.
 A questão não é de saber se tenho tempo para ler ou não (tempo que, aliás, ninguém me dará), mas se me ofereço ou não à felicidade de ser leitor.
 Discussão que Topete e Botas resume num slogan demolidor:
 — O tempo para ler? Eu tenho no meu bolso!
 À vista do livro que ele tira (um Jim Harrison, 10/18), Grifes aprova, pensativo:
 — É, quando a gente compra um blusão, o importante é que os bolsos sejam do formato certo!

Daniel Pennac
Como um Romance – págs. — 118 — 119 —

07/01/2012

Augusto Severo, o Poeta






      
 Escreveu Mabel Tavares, sobrinha de Augusto Severo, que “naqueles tempos de outrora, não havia um serão de família onde os jovens não fizessem ouvir belos poemas. O Brasil, rico de poetas, oferecia vastíssimo campo aos declamadores.”
 E assim também ocorreu com o ainda jovem Augusto Severo. Ele tinha as suas preferências quando chamado a declamar por ocasião daqueles encontros com a família reunida na “Casa de Guarapes”, uma casa grande localizada próxima ao porto de mesmo nome onde, em dias festivos e alegres, todos participavam de “alegres reuniões e saraus familiares”.
 De Castro Alves (o “Poeta dos Escravos”), Severo gostava de recitar “Duas Flores” e “Versos de um Viajante”; de Gonçalves Dias a poesia preferida era “Desejo”.
 “Do Velho Mundo, os geniais poetas Victor Hugo e Musset lhes falavam ao coração profundamente! Eram seus companheiros inseparáveis”, como afirmou a escritora Mabel Tavares.
 E ainda, o renomado português Luís de Camões, com os famosos “Lusíadas”, de onde Severo selecionava alguns versos.
 Quando sua irmã Amélia casou-se em 18 de setembro de 1886, Severo presenteou-a com algumas libras esterlinas de ouro e com a seguinte poesia de sua autoria. Nessa ocasião ele tinha 22 anos de idade.


Ficheiro:ASAM -Musee de l'Air, SEVERO+-.JPG
Pensei — Amélia — no que te ofertasse,
Para que o dia de hoje não passasse,
Sem guardar uma lembrança
Mas nada... nem sequer uma esperança

De encontrar o que tanto desejara...
Nem uma ave, uma flor, do trevo, a folha rara...
Ou mesmo o coração — longe daqui —
Para dizer-te: toma-o, guarda-o junto a ti

E sem a ave, o trevo, o coração e a flor
Lembrei-me destas pobres moedinhas
De ouro de lei, e boas amiguinhas,
Sem as quais, neste mundo, só o amor...

Augusto Severo de Albuquerque Maranhão, à sua irmã Amélia, pelo seu casamento, 18.IX.1886



Costa, Fernando Hippólyto da. Augusto Severo - Um Pioneiro na conquista do espaço. 
In: Capítulo 3: "Augusto Severo, o Poeta". Macaíba: Sebo Vermelho Edições, 2004.
págs. 25-26.