Postagens Recentes

31/01/2013

Geografia Pessoal - Ariano Suassuna na "Cadernos de Literatura Brasileira"






























O Monumento Armorial de D. Ariano Villar Suassuna para o Reino do Brasil


Revista "Cadernos de Literatura Brasileira: Ariano Suassuna"


Fotografia tirada por Euclydes Villar das duas Pedras do Reino. 
SUASSUNA, Ariano. Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta,
romance armorial popular brasileiro. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1976. 4a edição. 635 p.


Insígnia astrológica de Dom Pedro Dinis Quaderna, o Decifrador.






17/01/2013

Gonzaguinha - Sangrando


16/01/2013

93º aniversário de João Cabral de Melo Neto a 09.01.2013


João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

O universo poético de João Cabral de Melo Neto, autor inserido no Modernismo brasileiro, é principalmente, o da zona da mata e do sertão nordestino. Sua poesia remete o leitor constantemente às cidades de Olinda e de Recife com seus casarões antigos, seus mares e rios importantes como o Beberibe e o Capibaribe, e aos canaviais da zona da mata pernambucana. Mas também remete para a vegetação escassa da caatinga e à dor do agreste brasileiro. Por isso mesmo, dois de seus livros, Pedra do sono, de 1942 e A educação pela pedra, de 1966, trazem no título a idéia de pedra, símbolo da secura sertaneja e do solo pedroso da região.

As produções iniciais de João Cabral de Melo Neto, contudo, ressentem-se de uma matéria-prima mais significativa. Apenas com este poema longo, O cão sem plumas, a linguagem depurada parece encontrar uma temática a altura: o rio Capibaribe, que corta a cidade de Recife, rio-detrito, com sua sujeira, seus detritos com a população miserável que lhe habita as margens, trágico espelho do subdesenvolvimento. O cão desemplumado, portanto, é a metáfora de Cabral para o rio Capibaribe e sua cinzenta convivência com os homens-caranguejos, que também são cães sem plumas. "Difícil é saber/ se aquele homem/ já não está/ mais aquém do homem".

O poema foi publicado em 1950, em Barcelona, e inicia um ciclo de poemas em que o poeta explicita sua preocupação com a realidade nordestina e a denúncia da miséria. Busca, em meio uma atmosfera mineral, a vida possível. Ressalta-se na redundância, na duplicação de palavras e ritmos, o poema sugere a cadência da prosa e a monotonia das águas barrentas do Capibaribe, cão sem pêlo ou pluma, reduzido só a detritos e lama.

Anterior à peça em versos Morte e Vida Severina (escrita em 1954-55), esse cão despossuído de adornos representa um dos momentos mais altos da criação cabralina.

Poema soberbo, O Cão sem Plumas é a descrição das condições sub-humanas nas palafitas e mocambos do Recife. A dicção é dura, como convém ao tema, mas nunca resvala para o panfleto. “Só mesmo um grande artista poderia assumir ecos de um discurso social sem ser panfletário, romântico ou esteticista”, escreve o colunista Daniel Piza (Gazeta Mercantil, 18/10/1999). É um longo e hermético poema que denuncia não só o estado do rio, mas também a situação de exclusão da população ribeirinha, à margem de tudo.

O poema se constrói em duas instâncias geográficas: a da geografia física, que reflete sobre as questões regionais propriamente ditas (a descrição do rio, sua desembocadura, seus mangues e o processo de seu desaguamento no mar), e a da geografia humana, que nos faz pensar não só sobre as condições sociais e econômicas do homem que habita suas margens, mas também sobre o que faz de um homem um homem, ou seja, o poema parte de uma reflexão sobre a região e se completa com outra de caráter mais universal.

Há ainda, para a compreensão do poema, de se relevar uma oposição: a que o autor criou entre as coisas como deveriam ser e as coisas como na realidade se apresentam. Assim, ao falar da água do rio, ele sonha com a água perfeita (a água do copo, a água da chuva azul, a água que se abre aos peixes, a águaA? que teria os enfeites ou as plumas das plantas), ao mesmo tempo em que sofre ao constatar que ela não existe no rio Capibaribe, cuja água tem lodo, ferrugem e lama. Também, ao se referir ao habitante das margens do rio, o autor reflete sobre o que um homem devia ser (sonho e pluma) e se revolta diante da dificuldade de achar, naquele ser, um homem.

Outro ponto que se pode ressaltar é a pertinente análise do meio ambiente, sem isolá-lo das questões humanas - rio e homem são entidades indissociáveis no poema, tão confundidos que não é possível saber onde um começa e outro termina; a pobreza e a negritude do rio é causa da pobreza do homem negro de lama.

No poema, que se compõe de quatro momentos (Paisagem do Capibaribe, I e II; Fábula do Capibaribe, III e Discurso do Capibaribe, IV), os versos a seguir, extraídos do IV momento, ilustram com precisão o que foi dito acima:

Como o rio
aqueles homens
são como cães sem plumas
(um cão sem plumas
é mais
que um cão saqueado;
é mais
que um cão assassinado.
Na paisagem do rio
difícil é saber
onde começa o rio;
onde a lama
começa do rio;
onde a terra
começa da lama;
onde o homem,
onde a pele
começa da lama;
onde começa o homem
naquele homem.


Por fim, há um claro posicionamento do poeta no sentido de chamar o leitor à reflexão sobre o fato de que o rio será aquilo que o homem fizer dele, como a ave que conquista o seu vôo, e sobre a sociedade, que transforma o rio num não-rio, o mar num não-mar, o mangue num não-mangue e o homem num não-homem.

Poema na íntegra

I. Paisagem do Capibaribe

A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.

O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão,
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.

Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.
Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos polvos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.

Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.

Abre-se em flores
pobres e negras
como negros.
Abre-se numa flora
suja e mais mendiga
como são os mendigos negros.
Abre-se em mangues
de folhas duras e crespos
como um negro.

Liso como o ventre
de uma cadela fecunda,
o rio cresce
sem nunca explodir.
Tem, o rio,
um parto fluente e invertebrado
como o de uma cadela.

E jamais o vi ferver
(como ferve
o pão que fermenta).
Em silêncio,
o rio carrega sua fecundidade pobre,
grávido de terra negra.

Em silêncio se dá:
em capas de terra negra,
em botinas ou luvas de terra negra
para o pé ou a mão
que mergulha.

Como às vezes
passa com os cães,
parecia o rio estagnar-se.
Suas águas fluíam então
mais densas e mornas;
fluíam com as ondas
densas e mornas
de uma cobra.

Ele tinha algo, então,
da estagnação de um louco.
Algo da estagnação
do hospital, da penitenciária, dos asilos,
da vida suja e abafada
(de roupa suja e abafada)
por onde se veio arrastando.

Algo da estagnação
dos palácios cariados,
comidos
de mofo e erva-de-passarinho.
Algo da estagnação
das árvores obesas
pingando os mil açúcares
das salas de jantar pernambucanas,
por onde se veio arrastando.

(É nelas,
mas de costas para o rio,
que "as grandes famílias espirituais" da cidade
chocam os ovos gordos
de sua prosa.
Na paz redonda das cozinhas,
ei-las a revolver viciosamente
seus caldeirões
de preguiça viscosa).

Seria a água daquele rio
fruta de alguma árvore?
Por que parecia aquela
uma água madura?
Por que sobre ela, sempre,
como que iam pousar moscas?

Aquele rio
saltou alegre em alguma parte?
Foi canção ou fonte
Em alguma parte?
Por que então seus olhos
vinham pintados de azul
nos mapas?

II. Paisagem do Capibaribe

Entre a paisagem
o rio fluía
como uma espada de líquido espesso.
Como um cão
humilde e espesso.

Entre a paisagem
(fluía)
de homens plantados na lama;
de casas de lama
plantadas em ilhas
coaguladas na lama;
paisagem de anfíbios
de lama e lama.

Como o rio
aqueles homens
são como cães sem plumas
(um cão sem plumas
é mais
que um cão saqueado;
é mais
que um cão assassinado.

Um cão sem plumas
é quando uma árvore sem voz.
É quando de um pássaro
suas raízes no ar.
É quando a alguma coisa
roem tão fundo
até o que não tem).

O rio sabia
daqueles homens sem plumas.
Sabia
de suas barbas expostas,
de seu doloroso cabelo
de camarão e estopa.

Ele sabia também
dos grandes galpões da beira dos cais
(onde tudo
é uma imensa porta
sem portas)
escancarados
aos horizontes que cheiram a gasolina.

E sabia
da magra cidade de rolha,
onde homens ossudos,
onde pontes, sobrados ossudos
(vão todos
vestidos de brim)
secam
até sua mais funda caliça.

Mas ele conhecia melhor
os homens sem pluma.
Estes
secam
ainda mais além
de sua caliça extrema;
ainda mais além
de sua palha;
mais além
da palha de seu chapéu;
mais além
até
da camisa que não têm;
muito mais além do nome
mesmo escrito na folha
do papel mais seco.

Porque é na água do rio
que eles se perdem
(lentamente
e sem dente).
Ali se perdem
(como uma agulha não se perde).
Ali se perdem
(como um relógio não se quebra).

Ali se perdem
como um espelho não se quebra.
Ali se perdem
como se perde a água derramada:
sem o dente seco
com que de repente
num homem se rompe
o fio de homem.

Na água do rio,
lentamente,
se vão perdendo
em lama; numa lama
que pouco a pouco
também não pode falar:
que pouco a pouco
ganha os gestos defuntos
da lama;
o sangue de goma,
o olho paralítico
da lama.

Na paisagem do rio
difícil é saber
onde começa o rio;
onde a lama
começa do rio;
onde a terra
começa da lama;
onde o homem,
onde a pele
começa da lama;
onde começa o homem
naquele homem.

Difícil é saber
se aquele homem
já não está
mais aquém do homem;
mais aquém do homem
ao menos capaz de roer
os ossos do ofício;
capaz de sangrar
na praça;
capaz de gritar
se a moenda lhe mastiga o braço;
capaz
de ter a vida mastigada
e não apenas
dissolvida
(naquela água macia
que amolece seus ossos
como amoleceu as pedras).

III. Fábula do Capibaribe

A cidade é fecundada
por aquela espada
que se derrama,
por aquela
úmida gengiva de espada.

No extremo do rio
o mar se estendia,
como camisa ou lençol,
sobre seus esqueletos
de areia lavada.

(Como o rio era um cachorro,
o mar podia ser uma bandeira
azul e branca
desdobrada
no extremo do curso
— ou do mastro — do rio.

Uma bandeira
que tivesse dentes:
que o mar está sempre
com seus dentes e seu sabão
roendo suas praias.

Uma bandeira
que tivesse dentes:
como um poeta puro
polindo esqueletos,
como um roedor puro,
um polícia puro
elaborando esqueletos,
o mar,
com afã,
está sempre outra vez lavando
seu puro esqueleto de areia.

O mar e seu incenso,
o mar e seus ácidos,
o mar e a boca de seus ácidos,
o mar e seu estômago
que come e se come,
o mar e sua carne
vidrada, de estátua,
seu silêncio, alcançado

à custa de sempre dizer
a mesma coisa,
o mar e seu tão puro
professor de geometria).

O rio teme aquele mar
como um cachorro
teme uma porta entretanto aberta,
como um mendigo,
a igreja aparentemente aberta.

Primeiro,
o mar devolve o rio.
Fecha o mar ao rio
seus brancos lençóis.
O mar se fecha
a tudo o que no rio
são flores de terra,
imagem de cão ou mendigo.

Depois,
o mar invade o rio.
Quer
o mar
destruir no rio
suas flores de terra inchada,
tudo o que nessa terra
pode crescer e explodir,
como uma ilha,
uma fruta.

Mas antes de ir ao mar
o rio se detém
em mangues de água parada.
Junta-se o rio
a outros rios
numa laguna, em pântanos
onde, fria, a vida ferve.

Junta-se o rio
a outros rios.
Juntos,
todos os rios
preparam sua luta
de água parada,
sua luta
de fruta parada.

(Como o rio era um cachorro,
como o mar era uma bandeira,
aqueles mangues
são uma enorme fruta:

A mesma máquina
paciente e útil
de uma fruta;
a mesma força
invencível e anônima
de uma fruta
— trabalhando ainda seu açúcar
depois de cortada —.

Como gota a gota
até o açúcar,
gota a gota
até as coroas de terra;
como gota a gota
até uma nova planta,
gota a gota
até as ilhas súbitas
aflorando alegres).

IV. Discurso do Capibaribe

Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.

Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.

O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.

Como todo o real
é espesso.
Aquele rio
é espesso e real.
Como uma maçã
é espessa.
Como um cachorro
é mais espesso do que uma maçã.
Como é mais espesso
o sangue do cachorro
do que o próprio cachorro.
Como é mais espesso
um homem
do que o sangue de um cachorro.
Como é muito mais espesso
o sangue de um homem
do que o sonho de um homem.

Espesso
como uma maçã é espessa.
Como uma maçã
é muito mais espessa
se um homem a come
do que se um homem a vê.
Como é ainda mais espessa
se a fome a come.
Como é ainda muito mais espessa
se não a pode comer
a fome que a vê.

Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de secretas
e íntimas formigas.

E espesso
por sua fábula espessa;
pelo fluir
de suas geléias de terra;
ao parir
suas ilhas negras de terra.

Porque é muito mais espessa
a vida que se desdobra
em mais vida,
como uma fruta
é mais espessa
que sua flor;
como a árvore
é mais espessa
que sua semente;
como a flor
é mais espessa
que sua árvore,
etc. etc.

Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu vôo).

III. Fábula do Capibaribe

A cidade é fecundada
por aquela espada
que se derrama,
por aquela
úmida gengiva de espada.

No extremo do rio
o mar se estendia,
como camisa ou lençol,
sobre seus esqueletos
de areia lavada.

(Como o rio era um cachorro,
o mar podia ser uma bandeira
azul e branca
desdobrada
no extremo do curso
— ou do mastro — do rio.

Uma bandeira
que tivesse dentes:
que o mar está sempre
com seus dentes e seu sabão
roendo suas praias.

Uma bandeira
que tivesse dentes:
como um poeta puro
polindo esqueletos,
como um roedor puro,
um polícia puro
elaborando esqueletos,
o mar,
com afã,
está sempre outra vez lavando
seu puro esqueleto de areia.

O mar e seu incenso,
o mar e seus ácidos,
o mar e a boca de seus ácidos,
o mar e seu estômago
que come e se come,
o mar e sua carne
vidrada, de estátua,
seu silêncio, alcançado
à custa de sempre dizer
a mesma coisa,
o mar e seu tão puro
professor de geometria).

O rio teme aquele mar
como um cachorro
teme uma porta entretanto aberta,
como um mendigo,
a igreja aparentemente aberta.

Primeiro,
o mar devolve o rio.
Fecha o mar ao rio
seus brancos lençóis.
O mar se fecha
a tudo o que no rio
são flores de terra,
imagem de cão ou mendigo.

Depois,
o mar invade o rio.
Quer
o mar
destruir no rio
suas flores de terra inchada,
tudo o que nessa terra
pode crescer e explodir,
como uma ilha,
uma fruta.

Mas antes de ir ao mar
o rio se detém
em mangues de água parada.
Junta-se o rio
a outros rios
numa laguna, em pântanos
onde, fria, a vida ferve.

Junta-se o rio
a outros rios.
Juntos,
todos os rios
preparam sua luta
de água parada,
sua luta
de fruta parada.

(Como o rio era um cachorro,
como o mar era uma bandeira,
aqueles mangues
são uma enorme fruta:

A mesma máquina
paciente e útil
de uma fruta;
a mesma força
invencível e anônima
de uma fruta
— trabalhando ainda seu açúcar
depois de cortada —.

Como gota a gota
até o açúcar,
gota a gota
até as coroas de terra;
como gota a gota
até uma nova planta,
gota a gota
até as ilhas súbitas
aflorando alegres).

IV. Discurso do Capibaribe

Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.

Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.

O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.

Como todo o real
é espesso.
Aquele rio
é espesso e real.
Como uma maçã
é espessa.
Como um cachorro
é mais espesso do que uma maçã.
Como é mais espesso
o sangue do cachorro
do que o próprio cachorro.
Como é mais espesso
um homem
do que o sangue de um cachorro.
Como é muito mais espesso
o sangue de um homem
do que o sonho de um homem.

Espesso
como uma maçã é espessa.
Como uma maçã
é muito mais espessa
se um homem a come
do que se um homem a vê.
Como é ainda mais espessa
se a fome a come.
Como é ainda muito mais espessa
se não a pode comer
a fome que a vê.

Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de secretas
e íntimas formigas.

E espesso
por sua fábula espessa;
pelo fluir
de suas geléias de terra;
ao parir
suas ilhas negras de terra.

Porque é muito mais espessa
a vida que se desdobra
em mais vida,
como uma fruta
é mais espessa
que sua flor;
como a árvore
é mais espessa
que sua semente;
como a flor
é mais espessa
que sua árvore,
etc. etc.

Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu vôo).

Fonte parcial: Flávia Suassuna, professora de Literatura e escritora
Fonte: http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/o/o_cao_sem_plumas_poema

11/01/2013

[The Book Thief] A Sacudidora de Palavras (Max Vandenburg)



A SACUDIDORA DE PALAVRAS
Pequena coletânea de pensamentos para Liesel Meminger

PÁGINA 116
Liesel: quase risquei esta história.
Achei que talvez você já estivesse crescida demais para
esse tipo de conto, mas pode ser que ninguém esteja.
Pensei em você, nos seus livros e palavras,
e esta história estranha me veio à cabeça.
Espero que você encontre alguma coisa boa nela.


ERA UMA VEZ um homenzinho estranho, que decidiu três detalhes importantes sobre sua vida: 
     1. Ele repartiria o cabelo do lado contrário de todas as pessoas.
     2. Criaria para si mesmo um bigode pequeno e esquisito.
     3. Um dia, ele dominaria o mundo.

    O homenzinho perambulou por muito tempo, pensando, fazendo planos e procurando descobrir exatamente como tornaria seu o mundo. E então, um dia, saído do nada,

ocorreu-lhe o plano perfeito. Ele viu uma mãe passeando com o filho. A horas tantas, ela repreendeu o garotinho, até que ele acabou começando a chorar. Em poucos minutos, ela lhe falou muito baixinho, e depois disso ele se acalmou e até sorriu.

O homenzinho correu até a mulher e a abraçou. “Palavras!” E sorriu. 
“O quê?” 
Mas não houve resposta. Ele já se fora.
  



Sim, o Führer decidiu que dominaria o mundo com palavras. “Jamais dispararei uma arma.” Concluiu. “Não precisarei fazê-lo.” Mesmo assim, não se precipitou. Reconheçamos nele ao menos isso. Ele não tinha nada de burro. Seu primeiro plano de ataque foi plantar as palavras em tantas áreas de sua terra natal quantas fosse possível.
 Plantou-as dia e noite, e as cultivou.
Observou-as crescer, até que grandes florestas de palavras acabaram crescendo por toda a Alemanha. Era uma nação de pensamentos cultivados.

ENQUANTO as palavras cresciam, nosso jovem Führer plantou ainda sementes para criar símbolos, e também estas se achavam bem perto do pleno desabrochar. Era chegada a hora. O Führer estava pronto.

Convidou seu povo a se aproximar de seu glorioso coração, acenando-lhe com suas palavras melhores e mais feias, colhidas à mão em suas florestas. E as pessoas vieram.

Todas foram colocadas numa esteira rolante e conduzidas por uma máquina-baluarte, que lhes dava uma vida inteira em dez minutos. Eles eram alimentados com palavras. O tempo desapareceu e eles passaram a saber tudo o que precisavam saber. Foram hipnotizadas.

Em seguida, foram equipadas com seus símbolos, e todas ficaram felizes.


Em pouco tempo, a demanda das encantadoras palavras medonhas e dos símbolos aumentou a tal ponto que, com o crescimento das florestas, muitas pessoas se tornaram necessárias para cuidar delas. Algumas eram empregadas para trepar nas árvores e jogar as palavras para as que estavam embaixo. Em seguida, as palavras eram diretamente introduzidas no restante do povo do Führer, para não falar nos que voltaram para pedir mais.

As pessoas que trepavam nas árvores eram chamadas de sacudidoras de palavras.

Os melhores sacudidores de palavras eram os que compreendiam o verdadeiro poder delas. Eram os que conseguiam subir mais alto. Um desses sacudidores de palavras era uma menininha magricela. Ela era famosa como a melhor sacudidora de palavras de sua região, porque sabia o quanto uma pessoa podia ficar impotente SEM as palavras.




Por isso, ela se mostrava capaz de subir mais alto que qualquer outra pessoa. Desejava as palavras. Tinha fome de palavras.

Um dia, porém, ela conheceu um homem que era desprezado por sua pátria, embora tivesse nascido nela. Os dois se tornaram bons amigos, e, quando o homem adoeceu, a sacudidora de palavras deixou uma única lágrima cair sobre o rosto dele. A lágrima era feita de amizade – uma só palavra -, e secou e se tornou uma semente, e, ao voltar à floresta na vez seguinte, a menina plantou essa semente entre as outras árvores. Regou-a todos os dias.

A princípio, não aconteceu nada, porém, uma tarde, ao verificar a semente, depois de um dia inteiro sacudindo palavras, a menina viu que despontara um pequeno broto. Fitou-o por muito tempo.

O broto foi crescendo dia a dia, mais depressa do que todos os demais, até se transformar na árvore mais alta da floresta. Todos foram vê-la. Todos murmuraram sobre ela e esperaram... pelo Führer.
Inflamado, ele deu ordens imediatas de que a árvore fosse derrubada. Foi nessa hora que a sacudidora de palavras abriu caminho pela multidão. Prostrou-se sobre os joelhos e as mãos.

- Por favor – exclamou -, o senhor não pode derrubá-la.
Mas o Führer não se comoveu. Não podia dar-se ao luxo de abrir exceções.
Enquanto a sacudidora de palavras era arrastada para longe, ele se voltou para o homem que era seu braço-direito e fez um pedido:
- O machado, por favor.

NESSE MOMENTO, a sacudidora de palavras debateu-se até se libertar. Saiu correndo. Acercou-se da árvore, e, enquanto o Führer golpeava o tronco com seu machado, trepou até chegar aos galhos mais altos. As vozes e as batidas do machado prosseguiram, abafadas. As nuvens foram passando – como monstros brancos de coração cinzento. Amedrontada, mas teimosa, a sacudidora de palavras continuou lá em cima. Esperou a árvore tombar.

Mas a árvore não se mexeu.
Passaram-se muitas horas, porém, apesar disso, o machado do Führer não conseguiu tirar uma única lasca do tronco. Num estado próximo do colapso, ele ordenou que outro homem continuasse.                                 




Passaram-se dias.
As semanas se sucederam.
Nem cento e noventa e seis soldados conseguiram causar o menor impacto na árvore da sacudidora de palavras.




- Mas como é que ela faz para comer?
- perguntaram as pessoas. – Como é que
dorme?
O que elas não sabiam era que outros sacudidores de palavras jogavam mantimentos, e que a menina descia até os galhos mais baixos para recolhê-los.

NEVOU. Choveu. Vieram e se foram estações. A sacudidora de palavras permaneceu.
Quando o último machadeiro desistiu, gritou para ela:-Sacudidora de palavras! Você pode descer agora! Não há ninguém capaz de derrubar essa árvore!
A sacudidora de palavras, que mal conseguia discernir as frases do homem, respondeu:
- Não, obrigada. – disse, pois sabia que só ela é que mantinha a árvore de pé.

NINGUÉM era capaz de dizer quanto tempo levou, mas, uma tarde, entrou na cidade um novo machadeiro. Sua sacola parecia pesada demais para ele. Seus olhos se arrastavam. Seus pés pendiam de exaustão.
- A árvore – perguntou ele ao povo -, onde fica a árvore?

Uma platéia o seguiu, e, quando ele chegou, as nuvens tinham encoberto as regiões mais altas dos galhos.
A sacudidora de palavras ouviu as pessoas gritarem que chegara um novo machadeiro, para pôr fim a sua vigília.  

- Ela não descerá para ninguém – diziam as pessoas.
Não sabiam quem era o machadeiro, e não sabiam que ele não se desanimava.

O rapaz abriu a sacola e tirou uma coisa muito menor que um machado.

As pessoas riram, dizendo:
- Você não pode derrubar uma árvore com um martelo velho!
O rapaz não lhes deu ouvidos. Apenas vasculhou sua sacola, à procura de pregos. Pôs três deles na boca e tentou martelar o quarto na árvore. Nessa época, os primeiros galhos já eram extremamente altos, e ele calculou que precisaria de quatro pregos, a fim de usá-los como apoios para os pés e chegar até lá.
- Olhem para esse idiota – rugiu um dos espectadores. – Ninguém mais conseguiu derrubá-la com um machado, e esse bobalhão acha que conseguirá com...
O homem calou-se.

O PRIMEIRO prego entrou na árvore e foi fixado com firmeza, após cinco marteladas. Depois entrou o segundo, e o rapaz começou a subir.
No quarto prego, aproximava-se da copa e continuou a subida. Sentiu-se tentado a chamar enquanto o fazia, mas resolveu que não.
A subida pareceu durar quilômetros. Ele levou muitas horas para atingir os últimos galhos e, ao fazê-lo, encontrou a sacudidora de árvores adormecida em suas cobertas e nas nuvens.
Observou-a durante vários minutos.
O calor do sol aquecia o teto alto de nuvens.
O rapaz estendeu a mão, tocou no braço da sacudidora de árvores, e a menina acordou.
Ela esfregou os olhos e, depois de um longo estudo do rosto do rapaz, perguntou:  
- É você mesmo?
Será que foi do seu rosto, pensou, que tirei a semente?
O homem acenou que sim.
Seu coração oscilou e ele se agarrou com mais força aos ramos.
- Sou.

JUNTOS, os dois ficaram no topo da árvore. Esperaram as nuvens desaparecer e, quando elas se foram, puderam ver o restante da floresta.

                     - Ela não queria parar de crescer. – explicou a menina.
- Nem esta aqui também. – disse o rapaz, e olhou para o galho que segurava sua mão.
Estava certo.

Depois de olharem e conversarem bastante, os dois desceram. Deixaram para trás os cobertores e as sobras de comida.







As pessoas mal podiam acreditar no que viam e, no instante em que a sacudidora de palavras e o rapaz puseram os pés no mundo, a árvore finalmente começou a exibir as marcas das machadadas. Surgiram machucados. Abriram-se fendas no tronco e a terra começou a tremer.

- Ela vai cair! – gritou uma moça. – A árvore vai cair!
Tinha razão. A árvore da sacudidora de palavras, com todos os seus quilômetros e quilômetros de altura, começou lentamente a se inclinar. Soltou um gemido e foi sugada pelo chão. O mundo sacudiu e, quando enfim tudo se acalmou, a árvore ficou estendida em meio ao restante da floresta. Jamais conseguiria destruir toda ela, porém, que mais não fosse, uma trilha de cor diferente foi escavada em seu meio.
A sacudidora de palavras e o rapaz subiram no tronco horizontal. Abriram caminho por entre os galhos e começaram a andar. Ao olharem para trás, notaram que a maioria dos espectadores tinha começado a voltar para seus lugares. Lá dentro. Lá fora. Na floresta.
Mas, ao seguirem andando, eles pararam várias vezes para escutar. Julgaram ouvir vozes e palavras às suas costas, na árvore da sacudidora de palavras.



ZUSAK, Markus. A Menina que Roubava Livros. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2007. Trad. Vera Ribeiro. pp. 384-391.






09/01/2013

[The Book Thief] O Vigiador (Max Vandenburg)


- A TROCA DE PESADELOS - 
A menina: Diga, o que você vê quando sonha assim?
O judeu: ...Eu me vejo virando as costas e dando adeus.
A menina: Também tenho pesadelos.
O judeu: O que você vê?
A menina: Um trem, e meu irmão morto.
O judeu: Seu irmão?
A menina: Ele morreu quando eu me mudei para cá. no caminho.
A menina e o judeu, juntos: Ja - sim.

(ZUSAK, Markus. A Menina que Roubava Livros. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2007. Trad. Vera Ribeiro. p. 196)












































ZUSAK, Markus. A Menina que Roubava Livros. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2007. Trad. Vera Ribeiro. pp. 200 a 212.







07/01/2013

[RESENHA] A Menina que Roubava Livros - Markus Zusak



UMA SOBREVIVENTE — A ROUBADORA DE LIVROS NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

“(...)
— Uma pequena teoria —
  As pessoas só observam as cores do dia no começo e no fim, mas, para mim, está muito claro que o dia se funde através de uma multidão de matizes e entonações, a cada momento que passa. Uma só hora pode consistir em milhares de cores diferentes. Amarelos céreos, azuis borrifados de nuvens. Escuridões enevoadas. No meu ramo de atividade, faço questão de notá-los.

  Já que aludi a ele, o único dom que me salva é a distração. Ela preserva minha sanidade. Ajuda-me a aguentar, considerando-se há quanto tempo venho executando este trabalho. O problema é: quem poderia me substituir? (...) Nem preciso dizer que tiro férias à prestação. Em cores.
  Mesmo assim, é possível que você pergunte: por que é mesmo que ela precisa se distrair? De que precisa se distrair?

28/12/2012

A Lisboa Ultramarina (I)



06
Pintura de Romero de Andrade Lima
http://www.romerodeandradelima.com.br/ral/galeria11_ariano/pages/06.htm
Exposição "Memória Armorial", em homenagem ao seu tio e padrinho Ariano Suassuna
Outubro/09
Artur Afonso


Ao meu caro amigo Infante Dom Artur Afonso

Artur... Meu Dom Sebastião...
Alumioso... Encantado... 
Perdido nas Areias Inclementes de Alcácer-Quibir... 
Quanto esperam Portugal e Brasil pelo teu regresso... 

Creio que parto incontinenti, na primeira nau, 
Para o Estreito de Gibraltar... 
Teu Cervantes pai, Nadir Afonso, não há de expulsar-me
Do nobre clã dos Afonso, descendente 
Do primeiro Rey de Portugal, Dom Afonso Henriques.

Levarei apenas minha chávena de chá, 
A tira de couro com que prendo meus livros preferidos, 
A pena, a tinta, o papiro e duas mudas de roupa de montar. 

Chegarei, 
Passo antes no País Basco. 
Falarei com Unamuno, escutarei Calderón de la Barca.
Aguarda-me. 
"A vida é sonho, e os sonhos, sonhos são." 

Da Infanta da Casa de Dom Jerónimo de Albuquerque, 
com os cumprimentos da sua mãe marana, Sarah d'Albuquerque Maranhão Bezerra Valle. 

Letícia d'Albuquerque Maranhão  Valle.

Recife, XXVIII/XII/MMXII. 


                                      Lisboa antiga - Praça do Comércio vista do Rio Tejo 
                                                    viladobispo-fotosantigas.blogspot.com

26/12/2012

Sonnet CXVI (William Shakespeare)



Sonnet CXVI

Let me not to the marriage of true minds
Admit impediments. Love is not love

Which alters when it alteration finds,

Or bends with the remover to remove:


O no! it is an ever-fixed mark 
That looks on tempests and is never shaken;
It is the star to every wandering bark,
Whose worth's unknown, although his height be taken.

Love's not Time's fool, though rosy lips and cheeks 
Within his bending sickle's compass come: 
Love alters not with his brief hours and weeks, 

But bears it out even to the edge of doom.
   If this be error and upon me proved,
   I never writ, nor no man ever loved. 



Soneto CXVI

À sagrada união de almas duas, fiéis,
Entraves não admito: amor não é amor
Que se altera se encontra alguma alteração,
Ou se inclina a mudar ao ver o que é mutável.

Oh! não, é sempre um marco eternamente erguido;
Imóvel, testemunha, o furor da tormenta;
Astro a que toda nau errante se reporta,
De incógnito valor, se bem que mensurável.

Não é do Tempo o bobo, embora venha a sua
Curva foice atingir faces e lábios rubros
Não lhe abalam o curso horas breves, semanas;

Até a hora da morte ele fica imutável.
Se puderem provar que me tenha enganado,
Eu jamais escrevi, ninguém jamais amou.

Shakespeare, William. Obra Completa. Vol. III. Reimpressão da 1ª edição. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1988. p. 861.