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20/05/2012

A Filosofia do Penetral


                                                  FOLHETO XXX
                                     A FILOSOFIA DO PENETRAL


 Há muito tempo que eu desejava me instruir sobre aquela profunda Filosofia clementina, para me ajudar em meus logogrifos. Por isso, avancei:
 Clemente, esse nome de "penetral" é uma beleza! É bonito, difícil, esquisito, e, só por ele, a gente vê logo como sua Filosofia é profunda e importante! O que é que quer dizer "penetral", hein?
 Clemente, às vezes, deixava escapar "vulgaridades e plebeísmos" quando falava, segundo sublinhava Samuel. Naquele dia, indagado assim, respondeu:
 Olhe, Quaderna, o "penetral" é de lascar! Ou você tem "a intuição do penetral" ou não tem intuição de nada! Basta que eu lhe diga que o "penetral" é a união do faraute com o "insólito regalo", motivo pelo qual abarca o faraute, a quadra do deferido, o trebelho da justa, o rodopelo, o torvo torvelim e a subjunção da relápsia!
 Danou-se! exclamei, entusiasmado. O penetral é tudo isso, Clemente?
 Tudo isso e muito mais, Quaderna, porque o penetral é "o único-amplo"! Você sabe como é que "a centúria dos íncolas primeiros", isto é, os homens, sai da "desconhecença" para a "sabença"?
 — Sei não, Clemente! — confessei, envergonhado.
 — Bem, então para ir conhecendo logo o processo gaviônico de conhecimento penetrálico, feche os olhos!
 — Fechei! — disse eu, obedecendo.
 — Agora, pense no mundo, no mundo que nos cerca!
 — O mundo, o mundo... Pronto, pensei!
 — Em que é que você está pensando?
 — Estou pensando numa estrada, numas pedras, num bode, num pé de catingueira, numa Onça, numa mulher nua, numa coroa-de-frade, no vento, na poeira, no cheiro do cumaru e num jumento trepando uma jumenta!
 — Basta, pode abrir os olhos! Agora me diga uma coisa: o que é isto que você pensou?
 — É o mundo!
 — É não, é somente uma parte dele! É "a quadra do deferido", aquilo que foi deferido a você, como "íncola"! É o "insólito regalo"! É "o côisico", dividido em duas partes: a "confraria da incessância" e a "força da malacacheta", representada, aí no que você pensou, pelas pedras. Agora pergunto: tudo isso pertence ou não pertence ao penetral?
 — Não sei não, Clemente, mas pela cara que você está fazendo, parece que pertence.
 — Claro que pertence, Quaderna! Tudo pertence ao penetral! Tudo se inclui no penetral! Entretanto, para completar "o túdico" você, na sua enumeração do mundo, deixou de se referir a um elemento fundamental, a um elemento que estava presente e que você omitiu! Que elemento foi esse, Quaderna?
 — Sei não, Clemente!
 — Foi você mesmo, "o faraute"!
 — O Faraute não, o Quaderna! — disse eu logo, cioso da minha identidade.
 — O Quaderna é um faraute! — insistiu Clemente.
 Como aquilo podia ser alguma safadeza, reagi:
 — Epa, Clemente, vá pra lá com suas molecagens! Faraute o quê? Faraute uma porra! Faraute é você! Não é besta não?
 — Espere, não se afobe, não, homem! Faraute não é insulto nenhum! Eu sou um faraute, você é um faraute, todo homem é um faraute!
 — Bem, se é assim, está certo, vá lá! E o que é um faraute, Clemente?
 — Ora, Quaderna, você, leitor assíduo daquele Dicionário Prático Ilustrado que herdou de seu Pai, perguntar isso? Vá lá, no seu querido livro de figuras, que encontra! "Faraute" significa "intérprete, língua, medianeiro"! O curioso é que "a quadra do deferido" e o "rodopelo" pertencem ao penetral, mas o faraute, seja "nauta-arremessado" ou "tapuia-errante", também pertence! Não é formidável? É daí que se origina "o horrífico desmaio", o "tonteio da mente abrasada"! Inda agora, quando pensou no mundo, você não sentiu uma vertigem não?
 — Acho que não, Clemente!
 — Sentiu, sentiu! É porque você não se lembra! Quer ver uma coisa? Feche os olhos de novo! Isto! Agora, com as mãos atrás da nuca! Muito bem! Pense de novo naquele trecho do insólito regalo em que pensou há pouco! Está pensando?
 — Estou!
 — Agora, me diga: você não está sentindo uma espécie de tontura não?
 Eu, que sou impressionável demais, comecei a oscilar, sentindo uma tonteira danada, na cabeça. Pedi permissão a Clemente para abrir os olhos, porque já estava a ponto de cair da sela. O Filósofo, triunfante, concedeu:
 — Abra, abra os olhos! Como é? Sentiu ou não sentiu a vertigem? Sabe o que é isso? É a "oura da folia", início da "sabença", da "conhecença"! A oura causa o "horrífico desmaio". Este, leva ao "abismo da dúvida", também conhecido como "a boca hiante do contempto". O abismo comunica ao faraute a existência do "pacto" e da "ruptura". A ruptura conduz à "balda do labéu". E é então que o nauta-arremessado e tapuia-errante torna-se único-faraute. Isto é, o faraute é, ao mesmo tempo, faraute do insólito-regalo, faraute do rodopelo e faraute do faraute! Está vendo? O que é que você acha do penetral, Quaderna?
 — Acho de uma profundeza de lascar, Clemente! Para ser franco, entendi pouca coisa, mas já basta para me mostrar que a sua Filosofia é foda! Mas o que é, mesmo, penetral?
 — Vá de novo ao "pai-dos-burros"! "Penetral" é "a parte mais recôndita e interior de um objeto". Mas, na minha Filosofia, essa noção é ampliada, porque além de abranger a quadra do deferido e o rodopelo, o penetral abrange também o faraute, através da subjunção da relápsia! Mas, no momento em que se fala friamente do penetral, tentando capturá-lo em categorias de uma lógica sem gavionice negro-tapuia, ele deixa de ser apreendido! Faça seu apelo aos gaviônicos restos de sangue Negro e Tapuia que você tem, Quaderna, e entenda que o penetral "é o penetral", que o penetral "é"! O côisico, coisica: os cavalos cavalam, as árvores arvoram, os jumentos jumentam, as pedras pedram, os móveis movelam, as cadeiras cadeiram, e o faráutico, machendo e feminando, é que consegue genter e farauticar! É assim que o túdico tudica e que o penetral penetrala — e esta, Quaderna, é a realidade fundamental!
 — Arra diabo! — disse eu, de novo embasbacado. — E tudo isso já estava na Mitologia Negro-Tapuia, Clemente?
 Estava, estava! Aliás, está ainda! É por isso que o "Gênio da Raça Brasileira" será um homem do Povo, um descendente dos Negros e Tapuias, que, baseado nas lutas e nos mitos de seu Povo, faça disso o grande assunto nacional, tema da Obra da Raça!
 Claro que era em si mesmo que Clemente estava pensando. Mas Samuel contestou logo:
 — Nada disso, Quaderna! O "Gênio da Raça Brasileira" deverá ser um Fidalgo dos engenhos pernambucanos! Um homem que tenha nas veias o sangue dos Conquistadores ibéricos que fundaram, com a América Latina como base, o grande Império que foi o orgulho da Latinidade católica! Portugal e a Espanha não tinham dimensões para realizar aquilo que, neles, foi somente uma aspiração! Mas o Brasil é um dos sete Países perigosos do mundo! Por isso, cabe a nós instaurar, aqui, esse Império glorioso que Portugal e a Espanha não puderam realizar!
 — A meu ver, em prosa! — disse Clemente.E é assunto decidido, porque o filósofo Artur Orlando disse que "em prosa escrevem-se hoje as grandes sínteses intelectuais e emocionais da humanidade"! 
 Samuel discordou:
 Como é que pode ser isso, se todas as "obras da raça" dos Países estrangeiros são chamadas de "poemas nacionais"?
 — O Almanaque Charadístico diz, num artigo, que os Poetas-nacionais são, sempre, autores de Epopéias! — tive eu a ingenuidade de dizer. 
 Os dois começaram a rir ao mesmo tempo:
 — Uma Epopéia! Era o que faltava! — zombou Samuel. — Vá ver que Quaderna anda pelos cantos é conspirando, para fazer uma! Sobre o quê, meu Deus? Será sobre essas bárbaras lutas sertanejas em que andou metido? Não se meta nisso não, Quaderna! Não existe coisa de gosto pior do que aquelas estiradas homéricas, cheias de heróis cabeludos e cabreiros fedorentos, trocando golpes em cima de golpes, montados em cavalos empastados de suor e poeira, a ponto de a gente sentir, na leitura, a catinga insuportável de tudo! 
 Clemente uniu-se ao rival, se bem que por outro caminho. Disse: 
 — Além disso, a glorificação do Herói individual, objetivo fundamental das Epopéias, é uma atitude superada e obscurantista! E se você quer uma autoridade, Carlos Dias Fernandes também já demonstrou, de modo lapidar, que, nos tempos de hoje, a Epopéia foi substituída pelo Romance! 
 SUASSUNA, Ariano. Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta. Folheto XXX: A Filosofia do Penetral. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1976. 4ª edição. pp. 143-146.


15/05/2012

Millôr Fernandes sobre Ariano Suassuna


Millôr Fernandes (1923-2012)
O jornalista, humorista, desenhista, dramaturgo, poeta e tradutor Millôr Fernandes nasceu em 1923, no bairro carioca do Méier. Em 1938, iniciou sua carreira em O Cruzeiro, onde manteve, entre 1945 e 1963, sob o pseudônimo de Vão Gogo, a página dupla “Pif-Paf”. Fundou em 1964 a revista Pif-Paf, que durou apenas sete números — o oitavo foi apreendido pela Censura. Colaborou com Veja (1968-1982),  O Pasquim (1969-1975), Istoé (1983-93) e O Estado de S. Paulo, entre outros órgãos da imprensa. Atualmente escreve e desenha, como é de seu estilo, na Folha de S. Paulo, (caderno “Mais!”). Na área da dramaturgia, escreveu peças como Uma mulher em três atos (1952), Liberdade, liberdade (1966, junto com Flávio Rangel) e É... (1977). Traduziu obras de William Shakespeare e Bertolt Brecht, entre outros autores. Seu nome está associado a mais de cem espetáculos teatrais, caso de O Santo e a Porca, de Ariano Suassuna — Millôr é o autor do cartaz da montagem dirigida por Ziembinski em 1958.

“O passado, todos sabem, é uma invenção do presente. Quem busca datas para os acontecimentos já os está deturpando. Além do que, de datas eu não sei mesmo. Por isso afirmo que foi no fim dos anos 50 que me levantei entusiasmado e invejoso, no Teatro Dulcina, na Cinelândia, para aplaudir o Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. Ao meu lado, fazendo o mesmo, Silveira Sampaio, médico que há pouco tinha abandonado a medicina para se transformar no autor de algumas peças  leves e refinadas, que dirigia e interpretava. Terminado o espetáculo, fomos os três para minha casa — já na praia de Ipanema, idílica então — e ficamos conversando, varando a noite. E o dia foi amanhecendo por trás das montanhas Dois Irmãos, ainda livres do Hotel Sheraton, da favela do Vidigal, dos sinais luminosos, do tráfego ensandecido, enfim, da civilização. Só com raparigas em flor caminhando cronologicamente pro encontro fatal com Vinicius e Tom.
 Não me lembro de uma só palavra de Ariano. Ficou-me a forte impressão. Resíduos. A memória da memória.
 Quantos encontros tive com Ariano desde então? Não mais de dez. mas em nossa profissão, lavradores do nada, o contato é permanente. E, se fiz alguma coisa para decepcioná-lo, não sei. Ele não fez nada que me decepcionasse. Não lhe cobro nem com a Academia. Merece todas as imortalidades, até mesmo essa, pechisbeque (corrida ao Aurélio).
 Meu outro e imediato contato com Ariano foi em O Santo e a Porca. A pedido de Walmor Chagas e Cacilda Becker fiz o cartaz para a peça, cartaz que me defrontou um dia, para minha vergonha — sempre tenho vergonha do que faço, meu sonho é ser autor morto —, num dos caminhos do Aterro. Nem sei se Ariano jamais viu ou soube desse contato.
 Enquanto isso, Ele se expandia. Professor nato — não há nada mais fascinante do que didática, e a dele é excepcional — e criador compulsivo, se fez batalhador de causas culturais populares, exibiu em espetáculos teatrais sua capacidade de representar — é um grande showman, quem não viu não sabe o que perdeu —, fez-se um desenhista primoroso e escreveu A Pedra do Reino, que coloco facilmente entre os 10 maiores romances brasileiros (nunca me arrisco a dizer que alguma coisa é a maior), incluindo aí Guimarães Rosa e excluindo Machado de Assis, quem quiser que me siga.
 Uma das outras vezes que estive com meu herói foi no Recife, Instituto Joaquim Nabuco, onde Ele, enquanto aguardávamos minha oportunidade de incitar o povo com meu verbo flamante, recitou o primeiro poema (soneto) que escrevi na vida, aos 20 anos (já tive!, posso provar), e que também recito aqui, para vocês verem que há que ter memória:

Penicilina puma de casapopéia
Que vais peniça cataramascuma
Se partes carmo tu que esperepéias
Já crima volta pinda cataruma.

Estando instinto catalomascoso
Sem ter mavorte fide lastimina
És todavia piso de horroroso
E eu reclamo Pina! Pina! Pina!

Casa por fim, morre peridimaco
Martume ezole, ezole martumar
Que tua pára enfim é mesmo um taco.

E se rabela capa de casar
Estrumenente siba postguerra
Enfim irá, enfim irá pra serra.

No dia seguinte, autor ingrato, almoçando com Ele, cobrei ter errado uma palavra no soneto. 'Errei não', voltou ele. 'Corrigi. Você é que errou a métrica.'
 Somos do tempo em que havia métrica.
 E a última vez em que estivemos juntos foi o momento mais extraordinário. Na casa de nosso comum amigo José Paulo Cavalcanti, jornalista, escritor e causídico (a ordem é a do leitor), numa praia de quatro quilômetros de extensão, em Porto de Galinhas. Ficamos lá horas, conversando dentro d'água, num mar indizível mas que vou tentar dizer.
 A meu lado, dentro das águas claras, mansas e verdes, a presença absolutamente surreal de Ariano, secundado por (apertem os cintos!) Luis Fernando Verissimo. E eu ali, galera, me boquiabrindo diante da loquacidade brilhante de Suassuna e me boquifechando diante do mutismo perturbador de Verissimo, mostrando, como sempre, que não é homem de jogar conversa fora.
 Ao redor, a meteorologia no seu melhor, enviando leves pancadas de chuva em momentos precisos, e vento sempre fresco, com dezoito nós e alguns laços — os da amizade.

PS: Ah, e existe coisa mais nobre do que criar cabras? Ele cria. Coisas de grão-senhor."

CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, nº 10, nov. 2000. pp. 20-21.


Cadernos de Literatura Brasileira
sobre Ariano Suassuna
Instituto Moreira Salles







13/05/2012

A beleza do Porto (III)


Ribeira do Porto em foto antiga
http://ignorancia.blogspot.com.br/2011/01/porto-um-paragrafo.html

Arrecifes e Porto do Recife (1875) Marc Ferrez/Acervo IMS
www1.folha.uol.com.br 

Ao meu amado português J. Francisco Saraiva de Sousa



Meu ruivo


Meu cavalheiro ruivo,
larga tuas armas,
essas palavras desesperançadas
daqueles que não amaram, 
cujos brasões não ardem mais,
cujas tochas já se apagaram, 
cujos cetros caíram,
e só reproduzem o pensamento de outrem.

Queres o quê? Que me atire às trombas d’água?
às correntezas dos rios me lance?
dos arrecifes me jogue aos corais afiados?
que eu rasgue meus faldistérios?
que não consiga nem colher o algodão no lagar
nem bordar meu enxoval?

Ah, meu ruivo,
vem à labuta procurar-me.
achar-me-ás lá, fiando a lã
para tecer-te outro par de meias,
d’aquelle que rasgaste furiosamente.
Espero que a nossa mesa de cedro-rosa esteja intacta.
lembra-te que o artesão
levou três meses para concluí-la.


da tua jabuticaba em flor.


Letícia d'Albuquerque Maranhão Valle
Da Capela Nossa Senhora das Candeias
Engenho Cunhaú
Canguaretama
Capitania do Rio Grande,
Do Fidalgo da Casa Real, o Capitão Mor Jerônimo d’Albuquerque Maranhão.
XIII/V/MMXII





Capela de N. S. das Candeias
Engenho Cunhaú
Foto do álbum: Andanças pelo Rio Grande do Norte



30/04/2012

A beleza do Porto (I)


Ao meu amado português J. Francisco Saraiva de Sousa



Dr. Francisco

Ai, Dr. Francisco,
De Santo, Doutor, Poeta e Louco
Tens um pouco.
Por que não me vens curar
Dessa dor,
Que se alastra
Desterra-me
Para além-mar. . .

Guardo teu retrato
Debaixo da renda do criado-mudo
E o lencinho no meu peito
Tem bordadas as tuas iniciais.
Já perco saúde e juízo
De esperar a ama anunciar:
“Sinhazinha, é chegado o Dr. Francisco!!!”

Letícia d'Albuquerque Maram. Valle

Capitania hereditária de Pernambuco,
do ilustre Dom Duarte Coelho Pereira.


Reyno de Portugal, do Brasil e das Terras d'Aquém e d'Além-mar.

Recife, XXX/IV/MMXII.


J. Francisco de Sousa

cyberdemocracia.blogspot.pt

facebook.com/igor.sousa2



Pintura de Romero de Andrade Lima


25/01/2012

O Santo e a Porca (I) - Ariano Suassuna



Primeiro Ato
O pano abre na casa de Eurico Árabe, mais conhecido como Euricão Engole-Cobra
Personagens
Euricão
Margarida
Dodó
Caroba
Pinhão
Eudoro
Benona


Caroba — E foi então que o patrão dele disse: "Pinhão, você sele o cavalo e vá na minha frente procurar Euricão..."

Euricão — Euricão, não. Meu nome é Eurico.

Caroba — Sim, é isso mesmo. Seu Eudoro Vicente disse: "Pinhão, você sele o cavalo e vá na minha frente procurar Euriques..."

Euricão — Eurico!

Caroba — "Vá procurar Euríquio..."

Euricão — Chame Euricão mesmo.

Caroba — "Vá procurar Euricão Engole-Cobra..."

Euricão — Engole-Cobra é a mãe! Não lhe dei licença de me chamar de Engole-Cobra, não! Só de Euricão!

Caroba — "Vá na minha frente procurar Euricão para entregar essa carta a ele."

Euricão — Onde está a carta? Dê cá! Que quererá Eudoro Vicente comigo?

Pinhão — Eu acho que é dinheiro emprestado.

Euricão, devolvendo a carta. — Hein?

Pinhão — Toda vez que ele me manda assim na frente, a cavalo, é para isso.

Euricão — E que idéia foi essa de que eu tenho dinheiro? Você andou espalhando isso! Foi você, Caroba miserável, você que não tem compaixão de um pobre como eu! Foi você, só pode ter sido você!

Caroba — Eu? Eu não!

Euricão — Ai, meu Deus, com essa carestia! Ai a crise, ai a carestia! Tudo que se compra é pela hora da morte!

Caroba — E o que é que o senhor compra? Me diga mesmo, pelo amor de Deus! Só falta matar a gente de fome!

Euricão — Ai a crise, ai a carestia! E é tudo querendo me roubar! Mas Santo Antônio me protege!

Pinhão — O senhor pelo menos leia a carta!

Euricão — Eu? Deus me livre de ler essa maldita! Essa amaldiçoada! Ai a crise, ai a carestia! Santo Antônio me proteja, meu Deus! Ai a crise, ai a carestia!

(Entra Margarida atraída pelo rumor. Vem acompanhada de Dodó Vicente, disfarçado com uma horrível barbicha, com a boca torta, com corcova, coxeando e vestido de preto.)

Margarida — Papai! Que foi, meu pai? Ouvi o senhor gritar! Está sentindo alguma coisa?

Euricão — Ai minha filha, me acuda! Ai, ai! Os ladrões, minha filha, os ladrões!

Margarida — Socorro! Socorro! Pega o ladrão!

Euricão — Ai minha filha, não grite assim não! Não grite, senão vão pensar que a gente tem o que roubar em casa. E vêm roubar! Santo Antônio, Santo Antônio! Ai a crise, ai a carestia!

Margarida — Mas o que foi que houve?

Euricão — Ainda não houve nada, mas está para haver! Está para haver, minha filha! 

Margarida — O que é? Que foi que houve, Caroba? Que foi, Pinhão! Pinhão, você aqui? Ah, já sei o que houve, papai soube de tudo! É melhor então que eu confesse logo.

Caroba — Que a senhora se confesse? Deixe para a sexta-feira, porque a senhora aproveita e comunga! Que coisa, Dona Margarida só quer viver na igreja!

Euricão — Ai a crise, ai a carestia!

Margarida — Mas afinal de contas, o que foi que houve? Meu pai, eu vou contar... 
Dodó — Não! 
Pinhão — Não, não, Dona Margarida, quem fala sou eu! O que houve é que meu patrão escreveu uma carta ao senhor seu pai.
Margarida — Uma carta? Dizendo o quê?

Euricão — Você ainda pergunta? Só pode ser para pedir dinheiro emprestado! Aquele usurário! Aquele ladrão!

Caroba — Mas Seu Euricão, Seu Eudoro é um homem rico!

Euricão — E é por isso mesmo que eu estou com medo. Você já viu pobre pedir dinheiro emprestado? Só os ricos é que vivem com essa safadeza! Santo Antônio, Santo Antônio!

Margarida — Mas papai já leu a carta?

Euricão — Não! Nem quero ler! Nem quero que você leia! Afaste-se, não toque nessa amaldiçoada!

Margarida — Então tome.

Euricão — Não tomo!

Margarida — Leia o senhor mesmo!

Euricão — Não leio!

Margarida — Não pode ser coisa ruim, papai!

Euricão — Só pode ser coisa ruim, minha filha!

Caroba — Mas se for dinheiro emprestado, é só o senhor não emprestar, Seu Euricão! 


Euricão — É mesmo! É mesmo, Caroba! Eu nem me lembrei disso, no meu aperreio! 


Caroba — Leia a carta, Seu Euricão!

Margarida — É, papai, leia! Que mal faz?



Pinhão — Se for dinheiro emprestado...

Euricão, jogando a carta no chão. — Ai!

Margarida, apanhando-a. — Não é nada demais, está vendo? Olhe, veja o senhor mesmo!

Euricão — Não fala em dinheiro não?

Margarida — Não.

Euricão — Nem pede para eu avalizar alguma letra?

Margarida — Não.

Euricão — Você jura?

Margarida — Juro.

Euricão — Então eu leio. Mas Santo Antônio, veja lá! Não vá ser essa safadeza de me pedir dinheiro emprestado!

Margarida — Papai, leia a carta pelo amor de Deus!

Euricão — Você acha que eu devo ler?

Margarida — Acho.

Euricão — Então eu leio. Meu caro Eurico: espero que esta vá encontrá-lo como sempre com os seus, gozando paz e prosperidade! Ai! Margarida!

Margarida — Que é, papai?

Euricão — Você passou o São João na fazenda de Eudoro Vicente.

Margarida — É verdade, papai.

Euricão — Você foi dizer, lá, que eu era rico?

Margarida — Eu? E eu ia dizer uma coisa dessa, meu pai? Nós somos tão pobres!

Euricão — E como é que ele fala em prosperidade, aqui? Isso é dinheiro emprestado, não tem pra 
onde!

Margarida — É um modo de falar, papai, todo mundo diz isso nas cartas!

Euricão — É?

Margarida — É!

Euricão — Então eu leio. Gozando paz e prosperidade. Sobretudo, espero que esteja passando bem sua encantadora filha Margarida, cuja estada em minha casa ainda não consegui esquecer. Ah, isso aí ele tem que reconhecer, minha filha é um patrimônio que possuo. Hei de casá-la com um homem rico e ela há de amparar a velhice do paizinho dela. Eudoro, com todo o dinheiro que tem, não tem uma filha como a minha!

Caroba — E o senhor, com toda a filha que tem, não tem uma riqueza como a dele! 

Euricão — Como foi?

Caroba — Nada!

Euricão — Mando na frente meu criado Pinhão, homem de toda confiança...

Pinhão — Obrigado!

Euricão — ...para avisá-lo de minha chegada aí. Aí aonde? Eudoro Vicente pensa que, pelo simples fato de ter hospedado minha filha, eu estou obrigado a hospedá-lo? Ele convidou Margarida porque quis, que não convidei ninguém!

Margarida — Mas papai, ele foi tão delicado comigo!

Euricão — Mas eu não o convidei, esse é que é o fato! Eu não convidei ninguém! E o que é isso aqui? O que é isso aqui?

Caroba — Que é, Seu Euricão?

Euricão — Está vendo? Eu não dizia? Minha filha, você ainda causará minha perdição, minha morte, meu assassinato! Ai a crise, ai a carestia!

Margarida — Que foi, meu pai?

Euricão — A carta! A carta amaldiçoada! Bem que eu estava com um pressentimento ruim!

Margarida — Mas o que é que tem a carta? Dê cá, deixe eu ver! Onde é?

Euricão — Aí onde diz "de minha chegada aí". Ah carta amaldiçoada! Ai a crise, ai a carestia!

Margarida — De minha chegada aí, mas quero logo avisá-lo: pretendo privá-lo de seu mais precioso tesouro!

Euricão — Está vendo? Esse ladrão! Esse criminoso! Meteu na cabeça que eu tenho dinheiro escondido e quer roubá-lo. Estão me roubando! Ladrões, só pensam nisso! Mas vou tomar minhas providências! Saiam, saiam imediatamente! Vou trancá-los, entrem aqui imediatamente! Entrem, entrem! (Empurra os quatro num quarto qualquer, que tranca por fora. Tranca também as portas e janelas com barras de madeira e abre pelo meio uma grande porca de madeira, velha e feia, que deve estar em cena, atirada a um canto, como se fosse coisa sem importância. Dentro dela, pacotes e pacotes de dinheiro. Euricão, enquanto ergue e deixa cair amorosamente os pacotes, vai falando, ora consigo mesmo, ora com Santo Antônio, cuja imagem também deve estar em cena.)

Euricão — Ladrões, ladrões! Será que me roubaram? E preciso ver, é preciso vigiar! Vivem de olho no meu dinheiro, Santo Antônio! Dinheiro conseguido duramente, dinheiro que juntei com os maiores sacrifícios. Eurico Árabe, Eurico Engole-Cobra! Pois sim! Mas é rico e os que vivem zombando dele não têm a garantia de sua velhice. Ah, está aqui, os ladrões ainda não conseguiram furtar nada. Ah, minha porquinha querida, que seria de mim sem você? Chega dá uma vontade da gente se mijar! Fique aí até outra oportunidade. Se eu pudesse, comia você inteirinha! Ai, mas é impossível! Senão, desconfiam! (Abre as portas, numa alegria satânica.)

Euricão — Venham! Ra, ra! Então vocês queriam roubar o velho Euricão Árabe, hein? Euricão Engole-Cobra! Pois sim! Mas, se eu não cuido, as cobras é que vão me engolir.

Pinhão — É por isso que o povo diz que cobra que não anda não engole sapo.

Euricão — Acabe com esses ditados! Trabalhei com as cobras, é verdade, vendendo meus remédios por todo o sertão. Mas hoje... Vocês pensam que sou rico, não é?

Margarida — Mas papai, quem vai pensar uma coisa dessa?

Euricão — Vivo cercado de inimigos, de ladrões. E agora, ainda mais esse Eudoro Vicente, querendo roubar o que é meu! Esse ladrão, esse criminoso! Eu não convidei ninguém, ele vem porque quer. E você, Seu Dodó, não diz nada? O senhor ouve essa desgraça, vê que estão querendo me depenar, me explorar, e fica calado?

Dodó — O senhor vá ao hotel de Dadá e reserve quarto para o fazendeiro. Quando ele chegar, paga a conta!

Euricão — É mesmo! Dodó Boca-da-Noite! Que talento, que gênio! É a única pessoa que sabe me compreender! Se você não fosse tão pobre e tão feio, minha filha bem que poderia... Eu vou, sua idéia é boa. Mas cuidado, todo cuidado é pouco. Você fica aqui, de olho. Não deixa entrar ninguém. Margarida, minha filha, você jura que fica aqui?  

Margarida — Juro.

Euricão — Jura que não deixa ninguém entrar até que eu volte?

Margarida — Juro.

Euricão — Você também jura, Dodó Boca-da-Noite?

Dodó — Juro.

Euricão — Você vigia minha filha e ela vigia você! Vou reservar o quarto para Eudoro. E se ele chegar na minha ausência, vão logo esclarecendo tudo. Eu não convidei ninguém e não tenho dinheiro nenhum. E que Santo Antônio me proteja dos ladrões! (Sai. Imediatamente Margarida abraça Dodó.)

Margarida — Meu amor, o que é que se pode fazer para evitar isso? Espere, tire essa barba horrível, não consigo me convencer de que é você! Estamos perdidos, vão descobrir tudo.

Dodó — A que horas meu pai chega, Pinhão?

Pinhão — Chega já. Pelo menos foi o que ele disse na carta, mas falar é fôlego.

Margarida — Que terá havido, Dodó, meu amor? Que foi que deu em seu pai de repente? Terá desconfiado de que você está aqui?

Dodó — Ele estava zangado, Pinhão?

Pinhão — Não, pelo contrário, estava até alegre.

Dodó — Falou alguma coisa a meu respeito? A respeito de eu ter ou não ter ido para o Recife estudar?

Pinhão — Não. Ele não tem a menor idéia de que o senhor está aqui.

Margarida — O melhor é a gente confessar tudo, querido. Não agüento mais essa agonia. A todo 
instante penso que meu pai vai reconhecer você.

Dodó — Não está vendo que é impossível, meu bem? Quando seu pai me viu pela última vez, eu era um menino. E com esta corcova, essa roupa, essa barba... Não é Possível de jeito nenhum!

Margarida — Mas o seu? Ele vai chegar e vai reconhecê-lo. Não seria melhor dizer tudo? 

Dodó — Mas dizer tudo como, meu bem? Não tenho um tostão meu, meu pai é contra a idéia de eu me casar sem estudar, seu pai só deixa você casar com um homem rico... O que é que eu posso fazer contra este inferno?

Margarida — Talvez se seu pai soubesse que a noiva sou eu, permitisse o casamento e lhe desse terra para você trabalhar. Ele gostou tanto de mim quando estive lá!

Dodó — E eu mais ainda, tanto assim que abandonei meu estudo e vim me meter nesse armazém por sua causa.

Margarida — Mas com a chegada de seu pai, tudo se complica! Ele vai descobrir!

Dodó — Talvez você tenha razão, é melhor confessar. Quando ele chegar, descobrimos tudo e ficamos de joelhos diante dos dois, pedindo consentimento para nos casar.

Caroba — O senhor quer um conselho?

Dodó — Quero, Caroba, estou completamente cego.

Caroba — Então não descubra nada!

Margarida — Por quê? Você fala de um jeito tão misterioso!

Caroba — É porque estou maldando um negócio mais misterioso ainda. Vou dizer uma coisa curta e certa aos dois: não descubram a história não, porque o pai do senhor vem é para pedir Dona Margarida em casamento.

Dodó — O quê? Você está doida, mulher?

Caroba — Estou nada, homem! Seu pai não é viúvo?

Dodó — É.

Caroba — A senhora não passou um tempo lá?

Margarida — Passei.

Caroba — Ele não simpatizou com a senhora?

Margarida — Simpatizou.

Caroba — Ele não disse, na carta, que vinha roubar o tesouro mais precioso de Seu Euricão?

Pinhão — Disse.

Caroba — Então o que é que vocês querem mais? E casamento no duro!

Dodó — É possível?

Caroba — Por que não, Seu Dodó? E proibido casar?

Margarida — Mas assim, sem um aviso, sem uma proposta!

Caroba — Dona Margarida, essas coisas só se usam na primeira vez, na segunda, vai direto! Casamento de viúvo é feito depressa e sem muita conversa!

Margarida — Você acha que é possível?

Dodó — Ouvi papai falar em casamento mais de uma vez, para sondar minha opinião.

Margarida — E se for, o que é que a gente faz, meu Deus?

Caroba — É deixar as coisas como estão. Se o senhor tiver habilidade, pode ser que seu pai não o reconheça, pelo menos hoje. Quando ele chegar, já é quase noite. Com a corcova, a perna curta, a barbicha e a boca torta, o senhor bem que pode passar por outro. Então a gente vê o que faz, examina tudo, vê se é casamento mesmo e pode então partir daí para resolver tudo.

Dodó — Como?

Caroba — Eu sei lá, na hora se vê.

Margarida, a Dodó. — Você acha que está bem assim?

Caroba — Pode ser que não esteja, mas é o jeito.

Dodó — Está bem, Caroba, vou seguir seu conselho. E se tudo se resolver a contento, eu saberei 
mostrar minha gratidão.

Pinhão — Como?

Dodó — Eu descobrirei um modo.

Pinhão — Seguro morreu de velho.

Caroba — O senhor não tem uma terrinha que seu padrinho lhe deu?

Dodó — Tenho, mas é uma terrinha pequena, não dá para nada.

Caroba — Para o senhor, para mim vale muito. A coisa que eu mais desejo na vida é casar com 
Pinhão e ter uma terrinha para trabalhar nela com ele. Se a história se resolver e eu conseguir fazer seu casamento, o senhor passa a escritura dessa terra para nós dois?

Dodó — Passo.

Caroba — Prometido?

Dodó — Prometido.

Pinhão — Quem vive de promessa é santo.

Caroba — Mas aí é pegar ou largar.

Pinhão — Pois eu pego! Vou arranjar umas promissórias aí pela rua. O senhor assina uma no valor da terra. Quando passar a escritura, eu devolvo a que o senhor assinou, está bem? 

Dodó — Está, homem desconfiado!

Pinhão — O velho dobrou na esquina.

Caroba — Saiam, deixem eu enfrentar Seu Euricão. É preciso preparar o terreno.
Cuidado, lá vem ele! Pinhão, fique, preciso de sua ajuda

(Dodó põe os disfarces e sai atrás de Margarida. Entra Euricão.)

Euricão — Ladrões, só vejo ladrões! Mas Santo Antônio me protege. Caroba, você sozinha aqui? Que é isso? Onde estão os outros? Onde está Dodó Boca-da-Noite?

Caroba — Para falar com franqueza, não prestei atenção. Deve ter saído.

Euricão — Que conversa é essa? Você andou remexendo no que é meu?

Caroba— Que interesse eu tinha em remexer nessa troçaria? Só se fosse para ficar com asma, nesse mofo.

Euricão — Deixe ver os bolsos.

Caroba — Veja.

Euricão — Sacuda o vestido.

Caroba, obedecendo. — Está quente hoje, hein, Seu Euricão?

Euricão — Vire-se de costas.

Caroba — Pois não.

Euricão — Deixe de manejos e abra as mãos.

Caroba — Aqui estão.

Euricão — Não terá escondido nada embaixo da saía?

Caroba — Epa, vá pra lá! Que molecagem é essa?

Euricão — Idiota, eu sou um velho. Minha intenção é outra.

Caroba — Sei lá, isso é você quem diz!

Pinhão — É melhor você se garantir, Caroba.

(Caroba, que tem se aproximado da porca, coloca a mão descuidadamente em seu dorso.)

Euricão, aterrado. — Saia daí!

Caroba — Que foi?

Euricão — Uma aranha, aí!

Caroba — Ai! (Esconde-se atrás da porca, abraçando-se com ela.)

Caroba — Ai, tenho horror a aranha!

Euricão — Saia daí!

Caroba — O que é?

Euricão — Um lacrau enorme! Saia, saia! Olhe o lacrau, Caroba!

Caroba — Ai! Aonde, Seu Euricão?

Euricão — Aí na porca!

Pinhão — Aonde, que eu não estou vendo?

Euricão — Desapareceu, deve ter fugido!

Caroba — É capaz de estar embaixo da porca. (Abaixa-se e procura cuidadosamente, batendo na porca com os nós dos dedos.)

Euricão — Caroba! Olhe a caranguejeira!

Caroba — Ai! Esta casa está cheia de bichos, Seu Euricão!

Pinhão — Sabe por que é isso, Seu Euricão? São essas velharias que o senhor guarda aqui. Só essa 
porca já tem mais de duzentos anos.

Caroba — Por que o senhor não joga isso fora? Outro dia eu e Dona Margarida quisemos fazer uma surpresa ao senhor. A gente ia jogar fora essa porca velha e comprar uma nova para lhe dar.

Euricão, arriando numa cadeira. — Ai, ai! Miseráveis, miseráveis, assassinas, bandidas! Logo minha porquinha que herdei de meu avô! Toque nela e quem vai embora é você, está ouvindo, assassina? Sou louco por essa porca! Ai Santo Antônio, querem me roubar, me assassinar, e ainda por cima comprar uma porca nova que deve custar uma fortuna! Ladrões, ladrões! Ai a crise, ai a carestia! Santo Antônio, Santo Antônio!

Caroba — Está certo, Seu Euricão, está certo! Diabo duma agonia danada! Deixe a porca de lado, ninguém toca mais nela! Que é que vale uma porca? O negócio agora é evitar a facada que o tal do Eudoro vem lhe dar.

Euricão — A facada?

Caroba — E então? O senhor vai ver se não é! Pinhão me contou como ele faz.
Chega cheio de delicadezas. A essa hora, já se informou de sua devoção por Santo Antônio.
Ele chega e faz que é devoto do mesmo santo. Elogia o senhor, elogia sua filha, pergunta como vão os negócios, todo amável, e vai amolando a faca. (À medida que fala, vai evocando a cena imaginária com gestos significativos e cortantes.)

Caroba — Deve ser uma faca enorme, assim desse tamanho. Ele vai atolá-la até o cabo em sua barriga, xuiu! (Dá a facada com a mão na barriga de Euricão, que cai desfalecido numa cadeira.)

Euricão — Ai! Quanto você calcula que vai ser a facada, Caroba?

Caroba — Homem, pelo tamanho da faca, calculo aí nuns vinte contos.

Euricão — Ai! Caroba! Tenha compaixão de um pobre velho.

Caroba — Mas é claro que tenho, Seu Euricão! Já pensei em tudo e vou defendê-lo contra esse urubu.

Euricão — Você vai, Caroba? Como?

Caroba — O meio é contra-atacar com as mesmas armas. O senhor lhe oferece jantar, dá-lhe 
vinho, cerveja, e quando ele estiver bem entusiasmado para dar o golpe, o senhor dá nele primeiro.

Euricão — Como?

Caroba — Pedindo vinte contos emprestados.

Euricão — Ra, ra! Ra, ra! Grande idéia, Caroba, idéia genial! Mas como é que se paga o jantar?

Pinhão — O senhor tira dos vinte contos!

Euricão — Ladrão, miserável! Já quer gastar meus vinte contos que eu arranquei daquele criminoso com tanto trabalho! Quer me matar de fome, bandida? Quer gastar meu dinheiro?

Caroba — Mas Seu Euricão, o dinheiro não é dele?

Euricão — Ai, é mesmo! E se ele não emprestar, Caroba?

Caroba — Ah, ele empresta! Vou dar um jeito nisso. O senhor me dá uma comissão? 

Euricão — Se você arranjar os vinte contos? Dou.

Caroba — Quanto?

Euricão — Eu lhe dou metade daquele jerimum que o cego me deu ontem.

Caroba — É pouco! Eu quero é dinheiro, Seu Euricão!

Euricão — Ai, ai! Ainda não tenho os vinte contos e já querem me roubar! Não dou, não dou de jeito nenhum.

Caroba — Então, estou fora do negócio.

Euricão — Não! Preciso de você, Caroba, não me abandone!

Caroba — Então me dê minha comissão.

Euricão — Quanto é que você quer?

Caroba — Quinhentos.

Euricão — Dou cinqüenta.

Caroba — Estou fora!

Euricão — Cem.

Caroba — Estou fora!

Euricão — Cento e cinqüenta.

Caroba — Estou fora!

Euricão — Duzentos.

Caroba — Estou fora!

Euricão — E eu também! Estou fora, porque daí não passo de jeito nenhum! Estou fora! 

Caroba — Então eu entro! Fica pelos duzentos. Vou encomendar o jantar no hotel de Dadá.

Euricão — E como é que ele vai pagar, se sou eu que encomendo?

Caroba — O senhor tira dos vinte contos.

Euricão — E se ele não empresta?

Caroba — Ai, pelo menos a gente ganha o jantar.

Euricão — E com que é que se paga o jantar? Com meu dinheiro?

Caroba — O jantar não vai ser pago com os vinte contos, Seu Euricão.

Euricão — Ai, é mesmo. Assim, eu quero!

Caroba — Então vá, Pinhão. Vá e encomende o jantar que hoje aqui se come de noite e se come bem. Vá, Pinhão.

Pinhão — Meu patrão!

Caroba — Seu patrão?

Pinhão — Sim, chegou. Dona Benona Árabe está recebendo meu patrão aí fora, na calçada, perto do cemitério da igreja.

Caroba — Saia por aqui, então. É preciso que ele pense que você está do lado dele.
Senão ele desconfia, fica de sobreaviso e não empresta os vinte contos, não é, Seu Euricão?

Euricão — É, Pinhão, meu filho, saia por ali. Nessas coisas, a surpresa é tudo.
Vá e volte para nos ajudar, que a luta com esse criminoso vai ser grande.

(Pinhão sai, ao mesmo tempo que Benona entra.)

Benona— Eurico, Eudoro Vicente está lá fora e quer falar com você.

Euricão — Benona, minha irmã, eu sei que ele está lá fora, mas não quero falar com ele.
Benona — Mas Eurico, nós lhe devemos certas atenções.

Euricão — Você, que foi noiva dele. Eu, não!

Benona — Isso são coisas passadas.

Euricão — Passadas para você, mas o prejuízo foi meu. Esperava que Eudoro, com todo aquele dinheiro, se tornasse meu cunhado. Era uma boca a menos e um patrimônio a mais. E o peste me traiu. Agora, parece que ouviu dizer que eu tenho um tesouro. E vem louco atrás dele, sedento, atacado de verdadeira hidrofobia. Vive farejando ouro, como um cachorro da molesta, como um urubu, atrás do sangue dos outros. Mas ele está muito enganado. Santo Antônio há de proteger minha pobreza e minha devoção.

Caroba — Mas enquanto Santo Antônio não se vira, vamos ajudá-lo um pouco. Seu Euricão, saia por um momento.

Euricão — Você se encarrega de preparar tudo?

Caroba— É claro.

Euricão — Então eu saio. Traga o cachorro, Benona, traga o urubu. Se Deus quiser e Santo Antônio me ajudar, o golpe vai se virar por cima dele. Eu fico ali, assim que o terreno estiver preparado, me chame. (Sai.)

Caroba— Dona Benona, espere um instante. Quero lhe dizer um negócio, em caráter confidencial.

Benona — Que é, Caroba?

Caroba— Pinhão está desconfiado de que Seu Eudoro vem pedir a senhora em casamento.
Benona — Caroba!

Caroba — É verdade, Dona Benona! A senhora não foi noiva dele?  

Benona— Fui, mas briguei por uma besteira e ele se casou com outra.

Caroba— Mas o fato é que está viúvo e arrependido! Ele mandou dizer a Seu Euricão que vinha privá-lo de seu tesouro e Pinhão acha que só pode ser a senhora.

Benona— É possível?

Caroba— A senhora mesmo vai ver, daqui a pouco. Mas parece que ele está meio envergonhado, depois de tanto tempo. É natural, mas é preciso ajudá-lo.

Benona, faceira. — Ele está acanhado porque quer, porque eu nunca o esqueci.

 Caroba — Foi nada?!

Benona — E então?

Caroba — Pois eu vou ajudar Seu Eudoro a sair do acanhamento. A senhora me deixe só com ele que eu vou me certificar. Se for verdade, pode deixar que eu puxo a conversa na frente de Seu Euricão e a senhora noiva.

Benona — Ai, Caroba, estou tão confusa! Foi tudo tão de repente! E assim, de surpresa, sem me dizer nada! Mas Eudoro sempre foi meio doidinho!

Caroba — É casamento na certa! A senhora saia e deixe tudo comigo!

Benona— Pois está certo. Fique, fale com ele e que Santo Antônio nos proteja.

(Entra Eudoro Vicente. Benona lança-lhe um olhar provocante e terno.)

Benona — Eudoro, meu irmão vem já. Com licença, malvado! (Sai.)

Eudoro — Que foi que houve aqui, meu Deus, para Benona me olhar assim. Que coisa esquisita!

Caroba — Ah, e o senhor ainda não soube de nada não?

Eudoro — Não, o que foi que houve?

Caroba — O que houve, Seu Eudoro, foi que o povo daqui está desconfiado de que o senhor veio noivar.

Eudoro — E por que estão pensando nisso?

Caroba — O senhor mandou dizer na carta que ia roubar o tesouro de Seu Euricão e todo mundo está pensando que isso quer dizer "casar com Dona Margarida".

Eudoro — Pois estão pensando certo, Caroba. Desde que Dodó saiu de casa para estudar, estou me sentindo muito só. Simpatizei com a filha de Euricão e resolvi pedi-la, apesar da diferença de idade.

Caroba — O senhor está parecendo meio encabulado de pedir.

Eudoro — É verdade, Caroba. Não sei como vou começar. Minha idade não permite mais certas coisas que agradam às moças, de modo que...

Caroba — Então deixe comigo. Seu Euricão é louco pela filha. Não gosta nem de falar em casamento para ela, com medo de perdê-la. Mas, ao mesmo tempo, quer casá-la, pois considera a moça uma espécie de patrimônio. O senhor agrade o velho, seja delicado, diga que ele vai bem de saúde e de negócios, fale em Santo Antônio, que é a devoção dele, e deixe o resto comigo. Depois que eu puxar o assunto, depois que tudo estiver encaminhado, aí o senhor faz o pedido, está bem?

Eudoro — Está ótimo, Caroba. Para animá-la eu... (Remexe no bolso.)

Caroba — Nada disso, a única coisa que me interessa nisso é a estima que sempre lhe tive. Mas já que o senhor insiste...

Eudoro — Pois tome e puxe o assunto. Creio que Euricão não criará dificuldade.
Gosta da filha, mas gosta ainda mais de dinheiro e, sabendo que tenho algum... Mas o que é isso?

Caroba — Não é uma das velharias de Seu Euricão? Herdou essa porca ainda do tempo do avô e não há quem faça ele jogá-la fora.

Eudoro — Do tempo do avô, é? Interessante, muito interessante! Gosto muito de antiguidades!

Caroba — Então eu vou chamá-lo. Seu Euricão! Seu Euricão! Seu Euricão Engole-Cobra! 

Euricão, entrando. — Engole-Cobra é a mãe. Bom dia, Eudoro Vicente.

Eudoro — Bom dia, Eurico Árabe. Santo Antônio o guarde, Santo Antônio o proteja a você e a toda a sua família.

Euricão, à parte, a Caroba — Se não for dinheiro emprestado, eu estufe! Que Santo Antônio também o proteja, Eudoro Vicente.

Eudoro — Então sempre em saúde e prosperidade, hein?

Euricão — É dinheiro, não tem pra onde! Prosperidade, eu? Você sim, pode dizer que vai bem com todas aquelas fazendas!

Eudoro — Que é que adianta a terra, Eurico? Vem a seca e morre tudo. A felicidade é que tenho amigos e são eles que me valem nas horas de aperto.

Euricão — É dinheiro emprestado, não tem pra onde! Você gosta de contar desgraça, mas é para esconder a fortuna. Eu é que só tenho, para contar, miséria. Os ricos, como você, contam dinheiro, Eudoro, os pobres, como eu, desgraça.

Eudoro — Que nada, isso é modéstia! E quanto à crise, se puder fazer alguma coisa para ajudá-lo...

Euricão — Isso parece promessa, mas é para preparar o pedido. Está faminto, sedento por dinheiro emprestado.

Eudoro — Que tal lhe parece minha família?

Euricão — Boa.

Eudoro — E meu caráter?

Euricão — Bom.

Eudoro — E meus atos?

Euricão — Nem maus nem desonestos.

Eudoro — Qual é a opinião que você tem de mim?

Euricão — Sempre o considerei um cidadão honrado.

Eudoro — Pois eu também acho você um cidadão sem defeitos.

Euricão — Se não for dinheiro emprestado, eu me dane! O que é que você quer?

Caroba — Seu Euricão, o senhor sabe perfeitamente que Seu Eudoro gostou de uma pessoa de sua família.

Euricão — Sei, mas pensei que isso já tivesse passado.

Caroba — Ora passado, agora foi que começou! A simpatia que essa pessoa inspirou a Seu Eudoro só fez aumentar com a separação. Pois bem, Seu Eudoro veio pedi-la em casamento.

Euricão — Está dada, pode se considerar noivo. Mas eu preciso de vinte contos emprestados para fazer a festa do casamento.

Eudoro — Mas eu ainda não sei se ela aceita!

Euricão — A responsabilidade é minha, pode se considerar noivo! Não está vendo que eu não vou perder uma oportunidade dessa? Você está noivo, Eudoro, e eu preciso de vinte contos, esse é que é o fato.

Eudoro — Então mande chamar Margarida.

Euricão — Margarida? Pra quê?

Caroba — Seu Eudoro quer vê-la depois de tanto tempo, é perfeitamente natural, Seu Euricão. Ele já viu Dona Benona, agora quer ver Dona Margarida!

Euricão — Ah, sim. Mas quero logo lhe dizer, Eudoro, que ela esteve lá foi a convite seu. Eu não convidei ninguém, você vai para o hotel de Dadá!

Eudoro — Está bem, mas posso ver Margarida?

Euricão — Pode, por que não?

Eudoro — Diziam que você era tão cheio de coisas com ela!

Euricão — Ah, sou. Mas confio em você, por causa de sua idade e porque agora você é noivo. Você promete ir para o hotel?

Eudoro — Prometo, homem cuidadoso! Não fica bem eu, noivo, hospedado em casa da noiva, não é?

Euricão — Ah, é, nessas coisas eu sou inflexível! Basta dizer que mantenho um guarda, pago com meu dinheiro, só para tomar conta de Margarida. Tem ordem de não deixá-la um só instante.
Eudoro — Um guarda? Um homem?

Euricão — Sim, mas é tão feio que não há perigo. Margarida tem ódio dele.
Mas eu gosto, porque ele é prudente e econômico, chega a me dar lições. Chama-se Dodó.

Eudoro — Meu filho tem esse mesmo apelido de Dodó!

Caroba — Mas seu filho é coxo?

Eudoro — Você já morou em minha terra e sabe que não.

Caroba — É corcunda?

Eudoro — Não.

Caroba — Tem uma barbicha?

Eudoro — Não.

Caroba — Veste sempre preto?

Eudoro — Não.

Caroba — É amarrado?

Eudoro — Não.

Caroba — Tem a boca torta?

Eudoro — Não.

Euricão — Então não é esse não, porque Dodó Boca-da-Noite tem tudo isso e mais alguma coisa. Vou chamar os dois aqui. Margarida! Dodó Boca-da-Noite! (Entra Margarida.)
Eudoro — Oi, você não disse que ela é sempre vigiada?

Euricão — Margarida, você quer me desmoralizar? Sustente o pudor, Margarida! Olhe o recato, Margarida! Onde está Dodó?  

Margarida — Seu Dodó sentiu-se mal e ficou no armazém, papai.

Euricão — Sentiu-se mal o quê? Empregado meu tem lá licença de se sentir mal! Dodó, Dodó! Dodó Boca-da-Noite! (Dodó entra, exagerando a corcova, o andar e sempre de costas, para não ser reconhecido.)
Euricão — Cumpra com sua obrigação, está ouvindo?

Dodó — Estou.

Euricão — É um bom servidor, gosto muito dele! Venha cá conhecer meu amigo, Dodó.

Dodó — Ai!

Euricão — Que foi?

Margarida — Eu não disse que ele estava doente?

Dodó — Seu Eurico, um copo d’água, Seu Eurico!

Eudoro — Tome, moço.

Dodó, dando-lhe as costas.— Não! Já passou, estou bonzinho!

Caroba — Seu Euricão mandou chamar a senhora, Dona Margarida, porque Seu Eudoro Vicente fez o pedido de casamento.

Euricão — E já que ele vai entrar na família, minha filha...
Margarida — É verdade?  

Eudoro — É, Margarida. Ainda não tive tempo de ir ao hotel, mudar de roupa, mas quero logo pedir uma entrevista a você para conversarmos.

Euricão — Ah, não, entrevista não. A entrevista é essa!

Eudoro — Mas Eurico...

Margarida — Não precisa nem o senhor falar, meu pai. Prefiro ir para um convento.

Euricão — Está vendo o que é recato, Eudoro? Aí, Margarida! Sustente o pudor, Margarida, sustente o recato. Trata-se de Eudoro, é uma pessoa séria, de mais idade e além do mais vai entrar na família. Mas recato é recato! Entrevista, sozinha, com ninguém!

Eudoro — Mas Eurico...

Margarida — Já disse que prefiro ir para um convento. E vá marcar entrevista com gente de sua idade, está ouvindo? E saia daqui com seu casamento! Saia daqui porque eu...

(Caroba põe o dedo nos lábios e faz-lhe sinal para que ela saia. Margarida se interrompe bruscamente e começa a chorar, saindo arrebatadamente da sala, acompanhada sempre pelo fiel Dodó.)

Eudoro — Mas Eurico...

Caroba — Coitada, foi pega de surpresa pela notícia, é muito apegada com a família, principalmente com Dona Benona, e está com medo de perdê-la.

Euricão — É isso mesmo. Não se ofenda, Eudoro, vou acalmá-la. Uma conversa comigo e em dois tempos ela vai ser a primeira a apoiar a idéia. (Sai.)

Eudoro — A apoiar que idéia? A da entrevista?

Caroba — Não, a do casamento.

Eudoro — Bem que eu não queria fazer isso, assim de repente! Agora a moça está nervosa!

Caroba — Isso passa, deixe comigo! Ela faz isso porque está na frente do pai.
Mas quando ela falar com o senhor a sós, há de ver que ela quer o casamento.

Eudoro — Mas o fato é que não vou poder falar com ela a sós.

Caroba — Ah, isso não. Vai, e quem vai arranjar a entrevista sou eu.

Eudoro — Você? Como? Onde?

Caroba — Aqui e de noite, depois que o velho estiver dormindo. Ele dorme cedo, de modo que depois do jantar...

Eudoro — E se alguém acordar?

Caroba — É fácil disfarçar. Dona Margarida levanta-se às vezes à noite, para rezar escondido pela mãe.

Eudoro — Escondido por quê?

Caroba — Seu Euricão não gosta disso. A mulher abandonou-o e, depois que ela morreu, ele mandou buscar o corpo e enterrou aí. Mas não gosta nem que se fale dela. De modo que, se Dona Benona acordar, diz-se que foi isso. Dona Benona é a mais perigosa, tem mania de recato. E a conselho dela que Seu Euricão fica tão rigoroso com a filha.

Eudoro — Benona sempre foi assim, creio mesmo que foi por causa disso que ela... Mas enfim, você arranja a entrevista?

Caroba — Arranjo. Depois do jantar, quando todo mundo estiver deitado, eu destranco essa porta. Aí o senhor volta e pode falar com Dona Margarida, aqui.

Eudoro — Mas será que ela aceita?

Caroba — Aceita, a paixão dela pelo senhor é grande, vai vencer de uma vez só o pudor e o recato.

Eudoro — Está bem, mas cale a boca. O homem vem aí.

(Entra Euricão.)

Euricão — A moça se trancou e não houve jeito. É o recato, coitada. Mas você compreende isso, não é?  

Eudoro — É.

Euricão — Então adeus, Eudoro Vicente, não quero retê-lo mais, você deve estar com fome e o hotel...
Caroba — Patrão!

Euricão — Hein?

Caroba — E o jantar?

Euricão — Cale a boca, miserável!

Caroba — O senhor não prometeu um jantar? É para celebrar o noivado.

Eudoro — Um jantar? Ah, aceito, pois não. Venho jantar e depois vou dormir no hotel.

Euricão — Está bem, está bem. Essa você me paga, Caroba! E a respeito dos vinte contos? 

Eudoro — No jantar nós falaremos.

Euricão — Ótimo, ótimo. Essa parte está ótima.

Eudoro — Então, até já! E preparem o espírito da noiva! (Sai.)

Caroba — Seu Euricão, espero que o senhor não se esqueça de minha comissão.

Euricão — Que comissão?

Caroba — A que o senhor prometeu, se eu arranjasse os vinte contos.

Euricão — E quem disse que você me arranjou vinte contos? Aliás, ninguém me arranjou vinte contos. Eudoro Vicente prometeu, mas ainda não arranjou nada, vai arranjar!

Caroba— Mas quem planejou tudo fui eu!

Euricão — Mente, velhaca! Você tinha planejado tudo para o jantar e, se eu tivesse esperado, talvez a essa hora estivesse esfaqueado. Quem pressentiu o perigo fui eu, quem pediu o dinheiro fui eu e quem arranjou o dinheiro fui eu! Você não tem direito à comissão de qualidade nenhuma!

Caroba — Mas Seu Euricão...

Euricão — Adeus, Caroba, já basta o prejuízo do jantar.

Caroba — Mas Seu Euricão...

Euricão — Dê o fora, Caroba.

(Caroba sai de má vontade. Euricão vai até a porca e alisa-a carinhosamente.)

Euricão — Ai minha porquinha do coração, a luta é grande contra os ladrões.
Mas arranjei sempre mais vinte contos para seu buchinho.

(Entra Eudoro.)

Eudoro — Eurico...

Euricão, dando um salto. — Santo Antônio me proteja! Que negócio é esse de sair da casa dos outros e voltar nos mesmos pés? Você está me vigiando?

Eudoro — Não, Eurico, desculpe.

Euricão — Você notou alguma coisa?

Eudoro — Alguma coisa de quê?

Euricão — Você pensa que sou idiota, para dizer? Notou ou não notou?

Eudoro — Não notei nada!

Euricão — E que veio fazer aqui, entrando de emboscada, como um assassino? Como um ladrão?

Eudoro — Afinal, o que é isso? Que é que você quer dizer? Voltei porque vim lhe oferecer preço por essa porca que você guarda aí.

Euricão — Preço por minha porca? Ai! Socorro! Ladrão! Pega o ladrão!

Eudoro — Que é isso, homem?

Euricão — Ai a crise, ai a carestia! Ai Santo Antônio! Veja o que querem fazer comigo! 

Eudoro — Mas afinal de contas...

Euricão — Ai minha porquinha que herdei de meu avô e esse criminoso quer tomar! Ai minha porquinha! (Cai desfalecido numa cadeira.)

Eudoro — Está bem, homem de Deus, se não quer vender, não venda! Precisa essa agonia? Diabo duma esquisitice danada! Vá ser esquisito assim no inferno! (Vai saindo, quando encontra Benona.)
Benona — Dodó!

Eudoro, formal. — Minha senhora!

Benona — Que minha senhora que nada, malandro! Já soube de tudo e vim lhe dizer que concordo de todo coração! Está tudo esquecido.

Eudoro — Fico muito contente com isso, Benona.

Benona— E eu mais ainda, Dodó. Olhe como estou! Desde que você apareceu que meu coração começou a bater. Você acha que eu devo lhe dar um beijo?

Eudoro — Mas Benona, você acha que ficaria próprio?

Benona — Deixe de preconceitos, homem! Agora estou diferente, a vida me ensinou a ser menos tola! Não quer? Bem, então fica para mais tarde. Vou me vestir para o jantar. Mas não deixo você sair sem lhe dar um beliscão no espinhaço de jeito nenhum, quero me lembrar dos velhos tempos. Chegue aqui esse espinhacinho, safado!

Eudoro — Benona!

Benona — Ai meu Deus, quanta timidez, como é lindo isso! Esse Dodó sempre foi doidinho! Não tem isso não, lá vai beliscão!

Eudoro, correndo. — Benona! Diabo de povo mais esquisito! Benona! Ai! (Sai correndo, com Benona atrás.)

Euricão — Ai minha porquinha adorada, ai minha porquinha do coração! Querem roubá-la, querem levar meu sangue, minha carne, meu pão de cada dia, a segurança de minha velhice, a tranqüilidade de minhas noites, a depositária de meu amor! Mas parece que Santo Antônio me abandonou por causa da porca. Que santo mais ciumento, é "ou ele ou nada"! É assim? Pois eu fico com a porca. Fui seu devoto a vida inteira: minha mulher me deixou, a porca veio para seu lugar. E nunca nem ela nem você me deram a sensação que a porca dá. Ah, minha bela, ah, minha amada! Aqui você fica muito à vista de todos, todo mundo deseja a sua beleza, a sua bondade. É melhor levá-la para um lugar escondido. A mala do porão,é lá! Aí você ficará em segurança e eu poderei dormir de novo.
(Entra num socavão sob a escada, sobraçando a grande porca de madeira, e volta sem ela.)

Euricão — Agora, sim. E você, Santo Antônio, deve se contentar agora com minha pobreza e minha devoção. Eu não o esqueci. Não deixe que esses urubus descubram meu dinheiro! Faça isso, meu santo, e a banda de jerimum que eu ia dar a Caroba será sua. Menos as sementes, viu? As sementes eu quero para fazer xarope e vender no armazém. Ganha-se pouco, mas sempre é alguma coisa para se enfrentar a crise e a carestia! (Persigna-se e sai.)
FIM DO PRIMEIRO ATO