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26/03/2013

tempo de memória (António José Cravo)


tempo de memória

ribeira de pardelhas
                            ribeira de pardelhas

aqui sentei outrora sonhos
rasguei outras folhas com outra raiva

a memória enche este espaço

na ria os olhos gastam-se
iniciando uma viagem impossível
onde a saudade não tem lugar

o que fui
o seu tempo teve
o que sou
o mistério de estar de novo aqui
entrego ao sol
para que arda e morra e arda sempre

(António José Cravo) 

09/03/2013

escrever-te (António José Cravo)



de passagem
de passagem
escrever no
tempo que
me escreve

ser aqui
apenas
este sentir
tanto
enquanto
tempo meu
houver

pescar
palavras
no mar
dos dias
onde

escrever no
tempo que
me escreve

escrever-te

06/03/2013

"Pirata", por Sophia de Mello Breyner Andresen



Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.

Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.

A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo."

A poetisa mineira Adélia Prado, por Gabriel Chalita



CÂNDIDA ADÉLIA, PRADO DE POEMAS

Mestra na sala de aula, mestra em recontar a vida. Adélia Prado escreve como quem fala para a vizinha, numa conversinha mansa, descansada, cheia de vocativos, remetendo a pessoas que espera serem velhas conhecidas do leitor. É a tia Ceição, a lavadeira Tina do Moisés, a Dorita. Mestra na emoção.
Não aquela emoção grandiosa das tragédias gregas. Não a emoção espetacular das tragédias das tevês. Não. Descreve e narra as emoções pequeninas, que povoam os corações de todas as pessoas. Como quando a gente promete visitar alguém e não vai, e fica se sentindo constrangido, depois. Como quando a inquietação atinge um casal, que começa a perceber dificuldades na relação a partir de mínimas evidências - "Abel e eu estamos precisando de férias. Quando começa a perguntar quem tirou de não sei onde a chave de não sei o quê, quando já de manhã espero não fazer comida à noite, estamos a pique de um estúpido enguiço."
Foi com essa sabedoria que coroou a sua participação na Feira Literária Internacional de Parati, de 9 a 13 de agosto. Disse ela: "poeta é o que consegue perceber o ordinário, qualquer tolo repara o incomum".
Com essa placidez de rio Itapecerica, que banha a sua mineira Divinópolis natal, Adélia espicaça o leitor e o ouvinte a obter funduras de pensamento. "O transe poético é o experimento de uma realidade anterior a você. Ela te observa e te ama. Isto é sagrado. É de Deus. É seu próprio olhar pondo nas coisas uma claridade inefável. Tentar dizê-la é o labor do poeta."
Foi exatamente sobre isso que conversou a poeta Adélia Prado, na Festa Literária Internacional de Parati. Disse que a nossa vida ficou "esvaziada de realidade". Estava numa mesa de debates, apropriadamente denominada Bagagem, título de seu primeiro livro. A pergunta que se fazia era esta: que livro você levaria para uma ilha deserta? Ela escolheu "A transparência do mal" de Jean Baudrillard. E explicou, docemente: "Escolhi esse livro porque ele mostra que o individuo é um ser único. Sem o horror, não há a possibilidade do amor. Sem o mal não existe o bem".
Arrebatou platéias, em Parati, como arrebatara antes o patrício Carlos Drummond de Andrade, que vaticinava no Jornal do Brasil, em 1975, numa crônica, a senda de sucesso da poeta. Levou muita gente às lágrimas, pela comovente simplicidade com que abordou assuntos tão variados quanto amor e política. Sobre política, lamentou que os brasileiros não tenham um "consciente político coletivo", arma, segundo ela, "capaz de dar um jeito no País". Disse mais: "Nem mesmo juventude transviada nós temos, no sentido de que eles não têm uma via para se desviar dela".
Filosofou: "O que confere dignidade é aquilo que dá sentido à vida."
Falou de pedagogia: "Liberdade absoluta é liberdade nenhuma. Liberdade é ter compromisso com alguma coisa".
Falou de caridade: "Você já nasce experimentando uma orfandade. São Francisco fez um texto muito bonito em que diz 'eu, velhozinho miserável'. Isso é reconhecer a necessidade da ajuda".
Falou de inspiração: "As paixões humanas são as mesmas em Nova York, em São Paulo e na roça. Não tem importância ficar lá".
Lá quer dizer Minas Gerais. Lá, lugar do qual dizia Guimarães Rosa: "Minas são muitas. Porém, poucos são aqueles que conhecem as mil faces das Gerais".
Adélia Prado conhece. Porque tem alma de poeta, porque faz da poesia o pão espiritual, a fonte vital. Porque é uma mulher que tem inspiração para escrever isto: "Uma ocasião, meu pai pintou a casa toda de alaranjado brilhante. Por muito tempo moramos numa casa, como ele mesmo dizia, constantemente amanhecendo."
Adélia é poeta porque é cândida. A cândida Adélia, prado de poemas.
Gabriel Chalita 

05/03/2013

BASTA! (António José Cravo)


BASTA!



não nos queiram contar
fomos muitos
fomos indignação
protesto
fomos gerações
unidas massacradas
mas não vencidas

não nos queiram contar
fomos bastantes
revivemos o que pensávamos
já não
fomos ainda os mesmos
e muitos mais

isso te digo
cantámos e dissemos
basta!
basta!
ouviram?

estaremos cá
sempre
por nós
os que pela mão
ensinámos
a serem

estaremos cá
sempre
BASTA!

(António José Cravo)

o vídeo
http://www.youtube.com/embed/W_D85XlSs-o

16/01/2013

93º aniversário de João Cabral de Melo Neto a 09.01.2013


João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

O universo poético de João Cabral de Melo Neto, autor inserido no Modernismo brasileiro, é principalmente, o da zona da mata e do sertão nordestino. Sua poesia remete o leitor constantemente às cidades de Olinda e de Recife com seus casarões antigos, seus mares e rios importantes como o Beberibe e o Capibaribe, e aos canaviais da zona da mata pernambucana. Mas também remete para a vegetação escassa da caatinga e à dor do agreste brasileiro. Por isso mesmo, dois de seus livros, Pedra do sono, de 1942 e A educação pela pedra, de 1966, trazem no título a idéia de pedra, símbolo da secura sertaneja e do solo pedroso da região.

As produções iniciais de João Cabral de Melo Neto, contudo, ressentem-se de uma matéria-prima mais significativa. Apenas com este poema longo, O cão sem plumas, a linguagem depurada parece encontrar uma temática a altura: o rio Capibaribe, que corta a cidade de Recife, rio-detrito, com sua sujeira, seus detritos com a população miserável que lhe habita as margens, trágico espelho do subdesenvolvimento. O cão desemplumado, portanto, é a metáfora de Cabral para o rio Capibaribe e sua cinzenta convivência com os homens-caranguejos, que também são cães sem plumas. "Difícil é saber/ se aquele homem/ já não está/ mais aquém do homem".

O poema foi publicado em 1950, em Barcelona, e inicia um ciclo de poemas em que o poeta explicita sua preocupação com a realidade nordestina e a denúncia da miséria. Busca, em meio uma atmosfera mineral, a vida possível. Ressalta-se na redundância, na duplicação de palavras e ritmos, o poema sugere a cadência da prosa e a monotonia das águas barrentas do Capibaribe, cão sem pêlo ou pluma, reduzido só a detritos e lama.

Anterior à peça em versos Morte e Vida Severina (escrita em 1954-55), esse cão despossuído de adornos representa um dos momentos mais altos da criação cabralina.

Poema soberbo, O Cão sem Plumas é a descrição das condições sub-humanas nas palafitas e mocambos do Recife. A dicção é dura, como convém ao tema, mas nunca resvala para o panfleto. “Só mesmo um grande artista poderia assumir ecos de um discurso social sem ser panfletário, romântico ou esteticista”, escreve o colunista Daniel Piza (Gazeta Mercantil, 18/10/1999). É um longo e hermético poema que denuncia não só o estado do rio, mas também a situação de exclusão da população ribeirinha, à margem de tudo.

O poema se constrói em duas instâncias geográficas: a da geografia física, que reflete sobre as questões regionais propriamente ditas (a descrição do rio, sua desembocadura, seus mangues e o processo de seu desaguamento no mar), e a da geografia humana, que nos faz pensar não só sobre as condições sociais e econômicas do homem que habita suas margens, mas também sobre o que faz de um homem um homem, ou seja, o poema parte de uma reflexão sobre a região e se completa com outra de caráter mais universal.

Há ainda, para a compreensão do poema, de se relevar uma oposição: a que o autor criou entre as coisas como deveriam ser e as coisas como na realidade se apresentam. Assim, ao falar da água do rio, ele sonha com a água perfeita (a água do copo, a água da chuva azul, a água que se abre aos peixes, a águaA? que teria os enfeites ou as plumas das plantas), ao mesmo tempo em que sofre ao constatar que ela não existe no rio Capibaribe, cuja água tem lodo, ferrugem e lama. Também, ao se referir ao habitante das margens do rio, o autor reflete sobre o que um homem devia ser (sonho e pluma) e se revolta diante da dificuldade de achar, naquele ser, um homem.

Outro ponto que se pode ressaltar é a pertinente análise do meio ambiente, sem isolá-lo das questões humanas - rio e homem são entidades indissociáveis no poema, tão confundidos que não é possível saber onde um começa e outro termina; a pobreza e a negritude do rio é causa da pobreza do homem negro de lama.

No poema, que se compõe de quatro momentos (Paisagem do Capibaribe, I e II; Fábula do Capibaribe, III e Discurso do Capibaribe, IV), os versos a seguir, extraídos do IV momento, ilustram com precisão o que foi dito acima:

Como o rio
aqueles homens
são como cães sem plumas
(um cão sem plumas
é mais
que um cão saqueado;
é mais
que um cão assassinado.
Na paisagem do rio
difícil é saber
onde começa o rio;
onde a lama
começa do rio;
onde a terra
começa da lama;
onde o homem,
onde a pele
começa da lama;
onde começa o homem
naquele homem.


Por fim, há um claro posicionamento do poeta no sentido de chamar o leitor à reflexão sobre o fato de que o rio será aquilo que o homem fizer dele, como a ave que conquista o seu vôo, e sobre a sociedade, que transforma o rio num não-rio, o mar num não-mar, o mangue num não-mangue e o homem num não-homem.

Poema na íntegra

I. Paisagem do Capibaribe

A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.

O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão,
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.

Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.
Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos polvos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.

Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.

Abre-se em flores
pobres e negras
como negros.
Abre-se numa flora
suja e mais mendiga
como são os mendigos negros.
Abre-se em mangues
de folhas duras e crespos
como um negro.

Liso como o ventre
de uma cadela fecunda,
o rio cresce
sem nunca explodir.
Tem, o rio,
um parto fluente e invertebrado
como o de uma cadela.

E jamais o vi ferver
(como ferve
o pão que fermenta).
Em silêncio,
o rio carrega sua fecundidade pobre,
grávido de terra negra.

Em silêncio se dá:
em capas de terra negra,
em botinas ou luvas de terra negra
para o pé ou a mão
que mergulha.

Como às vezes
passa com os cães,
parecia o rio estagnar-se.
Suas águas fluíam então
mais densas e mornas;
fluíam com as ondas
densas e mornas
de uma cobra.

Ele tinha algo, então,
da estagnação de um louco.
Algo da estagnação
do hospital, da penitenciária, dos asilos,
da vida suja e abafada
(de roupa suja e abafada)
por onde se veio arrastando.

Algo da estagnação
dos palácios cariados,
comidos
de mofo e erva-de-passarinho.
Algo da estagnação
das árvores obesas
pingando os mil açúcares
das salas de jantar pernambucanas,
por onde se veio arrastando.

(É nelas,
mas de costas para o rio,
que "as grandes famílias espirituais" da cidade
chocam os ovos gordos
de sua prosa.
Na paz redonda das cozinhas,
ei-las a revolver viciosamente
seus caldeirões
de preguiça viscosa).

Seria a água daquele rio
fruta de alguma árvore?
Por que parecia aquela
uma água madura?
Por que sobre ela, sempre,
como que iam pousar moscas?

Aquele rio
saltou alegre em alguma parte?
Foi canção ou fonte
Em alguma parte?
Por que então seus olhos
vinham pintados de azul
nos mapas?

II. Paisagem do Capibaribe

Entre a paisagem
o rio fluía
como uma espada de líquido espesso.
Como um cão
humilde e espesso.

Entre a paisagem
(fluía)
de homens plantados na lama;
de casas de lama
plantadas em ilhas
coaguladas na lama;
paisagem de anfíbios
de lama e lama.

Como o rio
aqueles homens
são como cães sem plumas
(um cão sem plumas
é mais
que um cão saqueado;
é mais
que um cão assassinado.

Um cão sem plumas
é quando uma árvore sem voz.
É quando de um pássaro
suas raízes no ar.
É quando a alguma coisa
roem tão fundo
até o que não tem).

O rio sabia
daqueles homens sem plumas.
Sabia
de suas barbas expostas,
de seu doloroso cabelo
de camarão e estopa.

Ele sabia também
dos grandes galpões da beira dos cais
(onde tudo
é uma imensa porta
sem portas)
escancarados
aos horizontes que cheiram a gasolina.

E sabia
da magra cidade de rolha,
onde homens ossudos,
onde pontes, sobrados ossudos
(vão todos
vestidos de brim)
secam
até sua mais funda caliça.

Mas ele conhecia melhor
os homens sem pluma.
Estes
secam
ainda mais além
de sua caliça extrema;
ainda mais além
de sua palha;
mais além
da palha de seu chapéu;
mais além
até
da camisa que não têm;
muito mais além do nome
mesmo escrito na folha
do papel mais seco.

Porque é na água do rio
que eles se perdem
(lentamente
e sem dente).
Ali se perdem
(como uma agulha não se perde).
Ali se perdem
(como um relógio não se quebra).

Ali se perdem
como um espelho não se quebra.
Ali se perdem
como se perde a água derramada:
sem o dente seco
com que de repente
num homem se rompe
o fio de homem.

Na água do rio,
lentamente,
se vão perdendo
em lama; numa lama
que pouco a pouco
também não pode falar:
que pouco a pouco
ganha os gestos defuntos
da lama;
o sangue de goma,
o olho paralítico
da lama.

Na paisagem do rio
difícil é saber
onde começa o rio;
onde a lama
começa do rio;
onde a terra
começa da lama;
onde o homem,
onde a pele
começa da lama;
onde começa o homem
naquele homem.

Difícil é saber
se aquele homem
já não está
mais aquém do homem;
mais aquém do homem
ao menos capaz de roer
os ossos do ofício;
capaz de sangrar
na praça;
capaz de gritar
se a moenda lhe mastiga o braço;
capaz
de ter a vida mastigada
e não apenas
dissolvida
(naquela água macia
que amolece seus ossos
como amoleceu as pedras).

III. Fábula do Capibaribe

A cidade é fecundada
por aquela espada
que se derrama,
por aquela
úmida gengiva de espada.

No extremo do rio
o mar se estendia,
como camisa ou lençol,
sobre seus esqueletos
de areia lavada.

(Como o rio era um cachorro,
o mar podia ser uma bandeira
azul e branca
desdobrada
no extremo do curso
— ou do mastro — do rio.

Uma bandeira
que tivesse dentes:
que o mar está sempre
com seus dentes e seu sabão
roendo suas praias.

Uma bandeira
que tivesse dentes:
como um poeta puro
polindo esqueletos,
como um roedor puro,
um polícia puro
elaborando esqueletos,
o mar,
com afã,
está sempre outra vez lavando
seu puro esqueleto de areia.

O mar e seu incenso,
o mar e seus ácidos,
o mar e a boca de seus ácidos,
o mar e seu estômago
que come e se come,
o mar e sua carne
vidrada, de estátua,
seu silêncio, alcançado

à custa de sempre dizer
a mesma coisa,
o mar e seu tão puro
professor de geometria).

O rio teme aquele mar
como um cachorro
teme uma porta entretanto aberta,
como um mendigo,
a igreja aparentemente aberta.

Primeiro,
o mar devolve o rio.
Fecha o mar ao rio
seus brancos lençóis.
O mar se fecha
a tudo o que no rio
são flores de terra,
imagem de cão ou mendigo.

Depois,
o mar invade o rio.
Quer
o mar
destruir no rio
suas flores de terra inchada,
tudo o que nessa terra
pode crescer e explodir,
como uma ilha,
uma fruta.

Mas antes de ir ao mar
o rio se detém
em mangues de água parada.
Junta-se o rio
a outros rios
numa laguna, em pântanos
onde, fria, a vida ferve.

Junta-se o rio
a outros rios.
Juntos,
todos os rios
preparam sua luta
de água parada,
sua luta
de fruta parada.

(Como o rio era um cachorro,
como o mar era uma bandeira,
aqueles mangues
são uma enorme fruta:

A mesma máquina
paciente e útil
de uma fruta;
a mesma força
invencível e anônima
de uma fruta
— trabalhando ainda seu açúcar
depois de cortada —.

Como gota a gota
até o açúcar,
gota a gota
até as coroas de terra;
como gota a gota
até uma nova planta,
gota a gota
até as ilhas súbitas
aflorando alegres).

IV. Discurso do Capibaribe

Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.

Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.

O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.

Como todo o real
é espesso.
Aquele rio
é espesso e real.
Como uma maçã
é espessa.
Como um cachorro
é mais espesso do que uma maçã.
Como é mais espesso
o sangue do cachorro
do que o próprio cachorro.
Como é mais espesso
um homem
do que o sangue de um cachorro.
Como é muito mais espesso
o sangue de um homem
do que o sonho de um homem.

Espesso
como uma maçã é espessa.
Como uma maçã
é muito mais espessa
se um homem a come
do que se um homem a vê.
Como é ainda mais espessa
se a fome a come.
Como é ainda muito mais espessa
se não a pode comer
a fome que a vê.

Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de secretas
e íntimas formigas.

E espesso
por sua fábula espessa;
pelo fluir
de suas geléias de terra;
ao parir
suas ilhas negras de terra.

Porque é muito mais espessa
a vida que se desdobra
em mais vida,
como uma fruta
é mais espessa
que sua flor;
como a árvore
é mais espessa
que sua semente;
como a flor
é mais espessa
que sua árvore,
etc. etc.

Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu vôo).

III. Fábula do Capibaribe

A cidade é fecundada
por aquela espada
que se derrama,
por aquela
úmida gengiva de espada.

No extremo do rio
o mar se estendia,
como camisa ou lençol,
sobre seus esqueletos
de areia lavada.

(Como o rio era um cachorro,
o mar podia ser uma bandeira
azul e branca
desdobrada
no extremo do curso
— ou do mastro — do rio.

Uma bandeira
que tivesse dentes:
que o mar está sempre
com seus dentes e seu sabão
roendo suas praias.

Uma bandeira
que tivesse dentes:
como um poeta puro
polindo esqueletos,
como um roedor puro,
um polícia puro
elaborando esqueletos,
o mar,
com afã,
está sempre outra vez lavando
seu puro esqueleto de areia.

O mar e seu incenso,
o mar e seus ácidos,
o mar e a boca de seus ácidos,
o mar e seu estômago
que come e se come,
o mar e sua carne
vidrada, de estátua,
seu silêncio, alcançado
à custa de sempre dizer
a mesma coisa,
o mar e seu tão puro
professor de geometria).

O rio teme aquele mar
como um cachorro
teme uma porta entretanto aberta,
como um mendigo,
a igreja aparentemente aberta.

Primeiro,
o mar devolve o rio.
Fecha o mar ao rio
seus brancos lençóis.
O mar se fecha
a tudo o que no rio
são flores de terra,
imagem de cão ou mendigo.

Depois,
o mar invade o rio.
Quer
o mar
destruir no rio
suas flores de terra inchada,
tudo o que nessa terra
pode crescer e explodir,
como uma ilha,
uma fruta.

Mas antes de ir ao mar
o rio se detém
em mangues de água parada.
Junta-se o rio
a outros rios
numa laguna, em pântanos
onde, fria, a vida ferve.

Junta-se o rio
a outros rios.
Juntos,
todos os rios
preparam sua luta
de água parada,
sua luta
de fruta parada.

(Como o rio era um cachorro,
como o mar era uma bandeira,
aqueles mangues
são uma enorme fruta:

A mesma máquina
paciente e útil
de uma fruta;
a mesma força
invencível e anônima
de uma fruta
— trabalhando ainda seu açúcar
depois de cortada —.

Como gota a gota
até o açúcar,
gota a gota
até as coroas de terra;
como gota a gota
até uma nova planta,
gota a gota
até as ilhas súbitas
aflorando alegres).

IV. Discurso do Capibaribe

Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.

Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.

O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.

Como todo o real
é espesso.
Aquele rio
é espesso e real.
Como uma maçã
é espessa.
Como um cachorro
é mais espesso do que uma maçã.
Como é mais espesso
o sangue do cachorro
do que o próprio cachorro.
Como é mais espesso
um homem
do que o sangue de um cachorro.
Como é muito mais espesso
o sangue de um homem
do que o sonho de um homem.

Espesso
como uma maçã é espessa.
Como uma maçã
é muito mais espessa
se um homem a come
do que se um homem a vê.
Como é ainda mais espessa
se a fome a come.
Como é ainda muito mais espessa
se não a pode comer
a fome que a vê.

Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de secretas
e íntimas formigas.

E espesso
por sua fábula espessa;
pelo fluir
de suas geléias de terra;
ao parir
suas ilhas negras de terra.

Porque é muito mais espessa
a vida que se desdobra
em mais vida,
como uma fruta
é mais espessa
que sua flor;
como a árvore
é mais espessa
que sua semente;
como a flor
é mais espessa
que sua árvore,
etc. etc.

Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu vôo).

Fonte parcial: Flávia Suassuna, professora de Literatura e escritora
Fonte: http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/o/o_cao_sem_plumas_poema

26/12/2012

Sonnet CXVI (William Shakespeare)



Sonnet CXVI

Let me not to the marriage of true minds
Admit impediments. Love is not love

Which alters when it alteration finds,

Or bends with the remover to remove:


O no! it is an ever-fixed mark 
That looks on tempests and is never shaken;
It is the star to every wandering bark,
Whose worth's unknown, although his height be taken.

Love's not Time's fool, though rosy lips and cheeks 
Within his bending sickle's compass come: 
Love alters not with his brief hours and weeks, 

But bears it out even to the edge of doom.
   If this be error and upon me proved,
   I never writ, nor no man ever loved. 



Soneto CXVI

À sagrada união de almas duas, fiéis,
Entraves não admito: amor não é amor
Que se altera se encontra alguma alteração,
Ou se inclina a mudar ao ver o que é mutável.

Oh! não, é sempre um marco eternamente erguido;
Imóvel, testemunha, o furor da tormenta;
Astro a que toda nau errante se reporta,
De incógnito valor, se bem que mensurável.

Não é do Tempo o bobo, embora venha a sua
Curva foice atingir faces e lábios rubros
Não lhe abalam o curso horas breves, semanas;

Até a hora da morte ele fica imutável.
Se puderem provar que me tenha enganado,
Eu jamais escrevi, ninguém jamais amou.

Shakespeare, William. Obra Completa. Vol. III. Reimpressão da 1ª edição. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1988. p. 861.




Shakespeare in Love (1998)



Joseph Fiennes as William Shakespeare

 Sonnet XVIII

Shall I compare thee to a summer's day?
Thou art more lovely and more temperate.
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer's lease hath all too short a date.

Sometime too hot the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimmed;
And every fair from fair sometime declines,
By chance, or nature's changing course, untrimmed;

But thy eternal summer shall not fade,
Nor lose possession of that fair thou ow'st,
Nor shall death brag thou wand'rest in his shade,

When in eternal lines to Time thou grow'st.
     So long as men can breathe, or eyes can see,
     So long lives this, and this gives life to thee.

http://www.poets.org/viewmedia.php/prmMID/15555



Soneto XVIII

Posso te comparar a um belo dia estivo?
Bem mais suave e amena é a tua natureza;
Crestam ventos brutais de maio ou tenros brotos
E o baile do verão tem curta duração.

Às vezes, por demais ardente é a luz do sol,
Muitas vezes, porém, sua áurea tez se ofusca:
Toda beleza perde o seu fulgor um dia,
Quando a despoja a Sorte ou dos anos o curso.

Mas não murchará nunca o teu verão eterno,
Nem perderás jamais essa beleza tua;
Nem de em seu negror ver-te a Morte há de gabar-se,

Ao cresceres no tempo em meus versos eternos:
Enquanto vida houver e o olhar puder ver,
Meus versos viverão e te farão viver.

Shakespeare, William. Obra Completa. Vol. III. Reimpressão da 1ª edição. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1988. p. 823.



Shakespeare in "Sense and Sensibility" (1995)


A Paixão de Shakespeare (Trailer)


21/12/2012

O Captain! My Captain! (Walt Whitman)



193. O Captain! My Captain!

1

O CAPTAIN! my Captain! our fearful trip is done;
The ship has weather’d every rack, the prize we sought is won;
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring:
    But O heart! heart! heart!         5
      O the bleeding drops of red,
        Where on the deck my Captain lies,
          Fallen cold and dead.
  
2

O Captain! my Captain! rise up and hear the bells;
Rise up—for you the flag is flung—for you the bugle trills;  10
For you bouquets and ribbon’d wreaths—for you the shores a-crowding;
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
    Here Captain! dear father!
      This arm beneath your head;
        It is some dream that on the deck,  15
          You’ve fallen cold and dead.
  
3

My Captain does not answer, his lips are pale and still;
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will;
The ship is anchor’d safe and sound, its voyage closed and done;
From fearful trip, the victor ship, comes in with object won;  20
    Exult, O shores, and ring, O bells!
      But I, with mournful tread,
        Walk the deck my Captain lies,
          Fallen cold and dead.

Fonte: http://www.bartleby.com/142/193.html


                                                      *     *    *

"O Captain! My Captain!" is an extended metaphor poem written in 1865 by Walt Whitman, about the death of American president Abraham Lincoln.
"O Captain! My Captain!" is a poem written by the American Poet Walt Whitman in 1865. The poem is classified as an elegy because it is a mourning poem that was written in the memory of someone. The poem is honoring The Unites States' 16th president, Abraham Lincoln. Walt Whitman was born in 1819 and died in 1892, so he lived through the American Civil War. Being born close to the founding of the country, he knew people that were a part of the American Revolution. Through this he experienced the unification and division of the United States. Walt Whitman was extremely patriotic and wrote many poems about the prominence of America. He also wrote poems about urging people to fight for what is right
(...)
The main political and social issue during Whitman's time was slavery and the rights of African Americans. Whitman was self-described as the poet of America and, during the Civil War, the Union. Whitman wanted to see the end of slavery; this was his hope for America. However, it broke his heart to see the nation fighting. He admired Abraham Lincoln immensely because of his political standpoint of universal equality as stated in the constitution.


                                                           *      *      *
  "We don't read and write poetry because it's cute. We read and write poetry because we are members of the human race. And the human race is filled with passion. Medicine, law, business, engineering, these are noble pursuits, and necessary to sustain life. But poetry, beauty, romance, love, these are what we stay alive for. To quote from Whitman: 'O me, o life of the questions of these recurring, of the endless trains of the faithless, of cities filled with the foolish. What good amid these, o me, o life?' Answer: that you are here. That life exists, and identity. That the powerful play goes on, and you may contribute a verse. That the powerful play goes on and you may contribute a verse. What will your verse be?" (Mr. Keating, played by Robin Williams on Dead Poets Society)

Fonte: http://www.filmsite.org/bestspeeches42.html


09/12/2012

Ser Poeta (Florbela Espanca) por Luís Represas


118º aniversário de Florbela Espanca a 08.12.2012




Vitorino Nemésio refere a aura quase mitológica, como se de uma lenda se tratasse, que se gerou em torno de Florbela, a que não é, provavelmente, alheio o seu trágico percurso e a forma como o retratou nos seus versos: A rapidez com que a lenda se apoderou de Florbela mostra bem como estamos em presença - creio que pela primeira vez na literatura portuguesa - de uma poetisa musa. Mais do que isso: de uma deiade ou de um duende, um ser mitológico de que já alguns poetas autênticos (Manuel da Fonseca, por exemplo) se apoderaram para dele fazer a alma da planície alentejana, «genius loci» errante entre o piorno e as estevas. (Vitorino Nemésio, «Florbela», in «Conhecimento da Poesia»).

Fonte: http://www.citi.pt/cultura/literatura/poesia/florbela_espanca/nemesio.html


30/11/2012

Artur Afonso


22



Por Artur Afonso 

Dá-me a conhecer o mundo que anseio,
enche-me a vida de imolando!
Quero sentir o gozo da vida.

Quero ser parte do que é teu, 
conhecer as belas coisas do mundo,
sentindo a eternidade pulsante!

[Se tu soubesses o desejo que em mim, qual Fénix, renasce!
Se tu soubesses todas as coisas do saber, do amor distante...]

Vem, vem...
soubesses a alma que em mim fenece,
torpe distância que em mim se consome...
Vem, vem, vem... como me embalando.

Dá-me as coisas que não existem mas sinto,
Dá-me amor, esse desejo das coisas vencidas,
palpitantes por dentro...
satírica fome das coisas absortas!

Vem,
dá-me a poesia da vida!
- Que te possua olhando nas órbitas,
por dentro, como se eu fora o único, o tal,
o perene ser das coisas etéreas!

Vem,
dá-me esse regozijo de vida,
essas palpitações convulsas,
esse pulsar de alma que sente, de quem só sente...

Beija-me por dentro,
eu trémulo por tuas mãos arguentes, dá-se fome, dá-me tanto!
- A fome das coisas ausentes,
das coisas que sinto,
a fome da poesia ao dilacero, a fome que não pára!
Cicatriza-se-me a alma, parte-se-me o pranto!

Ah! Prosterna-me!
Goza no eu olhando-te na íris,
no eu que querendo-te em violência cortante,
como saciando fome de séculos e de vida!

...

Dá-se este pungir das coisas húmidas,
líquidos viscosos do corpo.
Ah... ser teu... vem!

Ser mais...
Ser como tu, nas estrelas distantes,
ser das coisas belas e reais...

Pulsar de vida!

- Artur Afonso

Fonte da imagem: http://www.romerodeandradelima.com.br
Exposição "Memória Armorial".
Outubro/09


12/08/2012

Sobre a frase de Rimbaud


Sobre a frase de Rimbaudseg, 09/11/09




Por Zeca Camargo

Pois é, infelizmente a frase do post anterior não é minha – algo que as próprias aspas já indicavam, claro, mas que eu quis esclarecer logo no início da nossa conversa de hoje. Aliás, já que é para dar crédito, parabéns à Andréia, que foi à fonte e citou em seu comentário o próprio autor, o poeta francês Arthur Rimbaud (1854-1891), inspiração quase sagrada para homens e mulheres de 17 anos “de todas as idades” – se é que você me entende… (...)
O verso – no original “On n’est pás sérieux , quand on a dix-sept ans” – abre (e quase fecha) um poema clássico de Rimbaud, chamado “Romance”, que, como o título já indica, fala da deliciosa loucura que é se apaixonar na adolescência. Lembro-me de ter lido Rimbaud pela primeira vez na época em que a maioria das pessoas descobre o poeta – e, com efeito, até mesmo a própria poesia: na adolescência tardia (que na minha história pessoal equivaleu aos meus primeiros anos de faculdade). Por uma nem tão óbvia assim associação de ideias, foi a mesma levada poética que me levou até Lorca – outro poeta, este espanhol (andaluz!), que nasceu no final do século 19 e morreu deveras jovem em 1936. Mas eu divago…
Enfim, entre tanta coisa que li então de Rimbaud, muito pouco ficou gravado na minha memória – uma vez que o próprio estado etílico em que eu geralmente me encontrava quando procurava amparo no poeta não permitia que eu retivesse muita coisa no meu jovem hipocampo (neurocientistas, por favor me perdoem essa licença poética!). Mas esse verso nunca me deixou – ainda que com pequenas variações (em algumas traduções ele vem mais taxativo: “Ninguém é sério aos 17 anos”!). (...)

Como toda boa provocação, esta (involuntária, talvez?) de Rimbaud não pretende chegar a nenhuma resposta definitiva. Só quer, justamente, provocar… (...)

“Eu vou. Por que não?”  – para citar um outro poeta (um certo Caetano), que sempre me ajuda a lembrar como é bom ter 17 anos…


06/08/2012

A Beleza do Porto (IV) ou As Cantigas de Córdoba


Ponte Romana de Córdoba
ebattuta.blogspot.com


Ao meu caro irmão J. Francisco Saraiva de Sousa 


El Rey Encantado 


Caro irmão Dr. Francisco,
Lamento pelos acontecimentos
que nos tornaram estranhos.

Bem sabes,
nada posso quanto
a um desejo do meu avô.

Chegou-me elle de Córdoba
com um noivo para casar-me.
Trouxe-o como parente que nos é
pelo sangue espanhol dos Valle.

— Deve ser um judeu andaluz, fugindo da Inquisição —
pensei eu raivosa.

Ah, mas foi vê-lo
e caiu-me por terra a teimosia.

Eis 
que a criatura é doce 
como o Mel de Uruçu,
gentil como quem ama-me há muito,
e esperou tanto encontrar-me
que, mesmo eu em desalinho,
achou-me bela.
Fremoso como um nobre,
olhos azuis de anjo.
Como bom trovador, tocou cantigas 
d’amôres de Reys.

Sinto, pois me curaste 
dos males tropicais.
No entanto, 
sei da tua clientela alvoroçada,
donde nenhuma falta farei.

Par Deus,
Doa, em meu nome,
a mesa de cedro
À Igreja de São Francisco do Porto.

Procura ler o juramento de Maimónides
pela Medicina, e sejamos
bons irmãos.
Saibas que estou corada 
e coroada
como uma romã.

Da irmã que te preza,

Letícia d'Albuquerque Maram. Valle
Capitania do Rio Grande
Sítio Estreito 
Villa de Jucurutu
Freguesia de Caicó 
Certam do Seridó 

VI/VIII/MMXII




«Tu Eterna Providencia me ha escogido para vigilar por la vida y la salud de Tus criaturas.
Que el amor por mi arte me guíe en todo tiempo.
Que ni la avaricia, ni la mezquindad, ni la sed de gloria ni de alta reputación, halaguen mi mente... porque los enemigos de la verdad y la misericordia podrían fácilmente engañarme y hacerme olvidar mis elevadas miras de hacer bien por Tus hijos.
Que jamás vea yo en el paciente otra cosa que un compañero en el dolor.
Concédeme siempre fuerza, tiempo y ocasión para corregir lo adquirido... para hacerlo siempre mejor porque la sabiduría es infinita y el espíritu del hombre puede siempre acrecentarla infinitamente con nuevos esfuerzos.
Hoy puede descubrir sus errores y mañana obtener una nueva luz sobre aquello mismo de que hoy se cree seguro.
Oh, Dios!... Tú me has escogido para vigilar por la vida y la salud de Tus criaturas: heme aquí dispuesto a seguir mi vocación!».
MAIMÓNIDES
Médico cabecera del sultán Saladino

Ciudad de Córdoba. Península Ibérica. Año 1185.

http://www.smu.org.uy/publicaciones/libros/laetica/nor-maimonides.htm