CARTA XIV - Diogo Bernardes

CARTA XIV.


De fama escura, ou clara nos faz dignos
Ou seja com mentira, ou com verdade.
O' ditosos espiritos peregrinos
Quem vos naõ ama, e teme, naõ entende
Que podeis fazer dos mortaes divinos.
Com força do tempo se defende
Huns pondes no Inferno, outros no Ceo,
O vosso poder só tanto s'estende.
Que mais á Poesia mereceo
Jupiter, que Plutaõ, eraõ irmãos,
Vejaõ ond'hum sobio, outro deceo.
A causa disto foy ter largas mãos
O que ficou a cima dos Planetas,
O outro tinha os dedos mais villãos.

Dissera maravilhas dos Poétas
A muyto pouco custa da memoria,
Mas pera que, pois te naõ saõ secretas?
Pesa-me não poder em nova historia
Dos Lusitanos Reys a origem clara
Levar ao templo da immortal memoria.
Não por falta de ingenho e invenção rara,
Estilo e arte, que Febo em tal sogeito
Desusados conceytos me inspirara.
Mas sabes de que nace este defeito?
De não ver neste tempo hum novo Augusto
A quem taõ bom trabalho seja aceito;
Logo necessario he, não digo justo,
Negar-me a meu desejo, por buscar
Cousa que á pobre vida faça o custo.
O mais fuja de mim, levem ao mar
Os seus tesouros Tejo, Hermo, e Patollo,
Quem naõ cobiça he bom de contentar.  


BERNARDES, Diogo. O Lyma. Nova edição. Lisboa, 1820. p. 177.

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