Nuno Júdice (Rimbaud Inverso - I)

                                        




Nuno Júdice


RIMBAUD INVERSO            
                                
                                                  




O pastiche é um pastis




(fragmentos)








oblíquos carros do matinal clamor
murmúrio de séculos afogados bebendo ternura
fogo do deus solar oferecendo-se para fechar os olhos
à força e à beleza abraçadas no poder desmedido da Vida
oiro de lâminas escritas na ventura excessiva da juventude
portais escancarados lassos de olhos do deserto nocturno
estações morrem e florescem naqueles que, longe da divina claridade,
descobrem a partida eterna do sol desejado — por quê? — 
num porto regressado das brumas imóveis ascendidas da barca do outono
crucificaram a chuva encharcando o pão podre de farrapos, lama e fogo
esplêndidas cidades de paciência ardente armadas
na aurora raiada de real ternura de armas veladas
de espécies retardadas na morte dos queixumes sórdidos 
moderados pelos silvos pestilentos de um cântico de dentes
as eternas recompensas caem em cima de um cadáver de luz


JÚDICE, Nuno. Obra Poética (1972-1985). Quetzal Editores: Lisboa, 1999. 2a edição. p. 323










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