Gilberto Avelino - O Senhor de Todas as Marés




Gilberto Avelino – O SENHOR DE TODAS AS MARÉS, texto de Cláudio Guerra,  publicado no jornal Folha de Macau. agosto/2002 
Das pequenas e belas colinas de Natal, no velho Barro Vermelho, me assusta que os cantos dos bem-te-vis estejam sendo abafados pelos sons dos bate-estacas. São muitos nos últimos meses. Minha vista alcança sempre mais perto e tenho medo dos olhos espigões a vigiar-me mais e mais altos. Saudade das pequenas cidades em que morei. Tudo agora me chega pelo telefone. Até a morte.  — Por obséquio, corre a notícia que o poeta morreu, você está sabendo de alguma coisa? Será mesmo verdade? Foi bem assim. A noticia chegou como indagação, dúvida, incerteza. Egoísta, eu que sempre soube que poetas não morrem, disse não saber nem que ele se encontrasse doente, quanto mais morrer assim, sem mais nem menos e ainda por cima num dia claro. Mais tarde veio a confirmação. O poeta decidira voltar ao seu “chão de sal” , dessa vez, em definitivo. E eu fiquei por algum tempo quietinho no canto escuro da sala a recordar nosso encontro há poucos dias na Capitania das Artes. Conversa breve, fiapinho de prosa quase formal, passageiros que éramos do Navio entre Espadas da poesia desnuda de Horácio Paiva, em noite de magia e alumbramento. Foi o meu último encontro com o poeta e ele estava muito feliz. Poeta de imaginação, sensibilidade e fantasia soube cantar sua aldeia buscando em cada beco e viela, em cada uma das “ruas compridas” dos “longos bairros” e em cada “gamboazinha” a poesia latente para nos revela-la, ora como um grito de alerta ou revolta, ora como música suave e enternecedora e sempre com a palavra límpida, precisa e certeira e a imagem cravada, indiscutivelmente bela e profunda. Recordo o carteiro de Neruda: “a poesia não é do poeta, mas de quem precisa dela”. Migrante às avessas, foi-me útil a poesia de Gilberto para compreender a região e o seu povo, a camaradagem rude de salineiros e pescadores e o coração escancarado por trás da carantonha. E agora, se o poeta considerou que estava na hora da volta derradeira, foi porque, cansado das andanças por este mundo cada vez mais desalmado e farto de desacertos, viu que era tempo de buscar refúgio entre rios, mangues, gamboas e o remanso das praias macauenses. Não em busca de um ancoradouro, porque poeta nunca lança âncoras, mas como senhor de todas as marés, guardião “de ribas, trapiches, rampas”, vigia das praias de Alagamar e Camapum, vigilante das dunas de Barreiras e Diogo Lopes e sentinela avançada do Pontal do Anjo e da praia de Soledade, a protegê-las da ganância e ambição dos homens que teimam destruir os sons da vida e tudo o mais que seja azul ou verde.


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