A ARTE DA XÁVEGA EM PORTUGAL

compartilhado do meu blog "O Chão de Sal de Macau", através de ahcravo's blog, no WordPress. 

xávega, não a matem


Rate This

a xávega nas estradas de portugal
a xávega nas estradas de portugal
não há muitos dias deparei-me, no quiosque de uma estação de serviço, com um exemplar do mapa de estradas de portugal, 2013, e que tinha no rosto a foto anexa.
o barco, s. paio, foi um dos últimos barcos movido só a remos da praia da torreira e um dos primeiros a utilizar motor (o outro foi o óscar miguel, do arrais joão da calada). o proprietário era o arrais manel fumante, de seu nome manuel maria da cunha, e a companha terá trabalhado até por volta de 1995 – segundo informações de joão da calada.
é este o portugal onde vivo. no momento em que o governo, com a informação muito subtilmente passada na comunicação social de que irá deixar de ser possível comercializar peixe miúdo, nomeadamente o jaquinzinho ou carapau pipi, decreta a condenação desta arte de pesca, a sua imagem é utilizada para promover o país.
a xávega, embora já sem os bois, continua a ser uma arte de pesca praticada num único país do mundo: portugal. a beleza e a dureza da faina fazem parte da nossa memória colectiva e são um emblema dos pescadores portugueses e de todo um povo.
obedecendo a todas as normas legais, nacionais e europeias, a malhagem das redes da xávega continua a trazer carapau com tamanho inferior ao determinado pela união europeia para a costa atlântica, muito maior que o permitido para o mediterrâneo – nós pescamos carapau no atlântico e os espanhóis no mediterrâneo !!!!!!!!!! (não).
não querendo aqui falar de outras embarcações que se dedicam, ao longo da costa e ao largo, à pesca do carapau, seria bom dizer que o carapau miúdo capturado pelas xávegas, tem um defeito: é visível, fica ali na areia aos olhos de quem por perto esteja e dos fiscais atentos. já os do alto ……
sempre foi tradição entre os arrais da xávega, até para salvaguardar a sua sobrevivência, que, se no primeiro lanço do dia só viesse carapau miúdo, não se faria mais nenhum lanço até depois do almoço, e que se se voltasse a repetir a abundância do mesmo carapau, a pesca nesse dia era suspensa. o peixe era vendido e, embora não desse muito, sempre dava algum para a companha.
em 2012, sabe-se lá porquê, as autoridades resolveram começar a exercer uma fiscalização exacerbada em todas as praias onde ainda existem companhas de xávega e a controlar de forma apertada os tamanhos do carapau – tudo o que fosse menos de 12cm tinha de ser enterrado na areia, deitado ao mar, ou, se apreendido, depois de aplicadas as respectivas coimas, lixiviado e destruído.
note-se que estamos muito acima do tamanho dos jaquinzinhos e na dimensão do carapau que “habitualmente” é capturado pelas companhas, impedir a sua comercialização é impedir a manutenção da xávega como arte de pesca e forma de subsistência de muitas famílias.
com tanta gente a passar fome, isto é no mínimo um atentado à consciência de qualquer um. ainda se o peixe ao ser devolvido ao mar continuasse vivo…. mas tal é impossível: peixe na praia é peixe morto ou condenado a tal.
mas, nas grandes superfícies, lá estão à venda os jaquinzinhos! claro que com etiqueta espanhola, como a medida no mediterrâneo é menor…..
dizem alguns que a xávega, ao efectuar estas capturas, põe em causa a sustentabilidade da fileira do carapau na nossa zona de pesca exlusiva, mas se nem sequer esgotámos, em 2012, a quota imposta pela união europeia para o carapau, como é possível que a sua sustentabilidade esteja em causa?
a associação portuguesa de xávega, criada em novembro de 2012, que representa todas as companhas da nossa costa, tem vindo a desenvolver iniciativas, junto do governo e do parlamento, para que esta situação seja alterada e se mantenha a capacidade de subsistência desta forma secular de pesca e uma das maiores atracções turísticas das praias da costa ocidental portuguesa.
é pois tempo de apoiar todas as acções que conduzam a uma reavaliação das normas aplicadas às capturas da xávega e deixar para outras calendas as discussões teóricas sobre designações de artes e barcos.
enquanto descendente de pescadores da xávega (ou chamem-lhe o que quiserem) e admirador destes homens e mulheres que teimam, sem qualquer apoio, em continuar a ganhar o pão com os saberes herdados dos seus antepassados, queria deixar aqui o meu apelo a todos os que andam distraídos em guerras de emails e outras, sobre denominações e terminologias, que o importante neste momento não é de como se chama, é de como se continua.
diria um pescador: quantas vezes mais fácil é defrontar o mar do que convencer os homens.


Nenhum comentário :

Postar um comentário