[RESENHA] Uma Garrafa no Mar de Gaza - Valérie Zenatti


                                                 CARTAS ENTRE O ORVALHO DA MANHÃ E O PARAÍSO
Conheci este livro através de um blog, As Envenenadas pela maçã, na coluna de adaptações para o cinema, e quis muito poder assistir ao filme, produção franco-israelense, estrelado por Agathe Bonitzer e Mahmud Shalaby. Aqui na cidade não é tão frequente a exibição de filmes europeus, e quando tem, é em sessão de arte. 

  Não gosto muito de filmes inspirados em livros, a não ser que seja algum que eu leia milhares de vezes por ser maravilhoso, e queira conferir o meu livro favorito nas telas. A este, assistiria.

  Como aprendi a lidar e gostar de assuntos que tenham relação com Israel e o Holocausto, corri para comprá-lo, e adorei. 


  A história se passa entre Jerusalém e Gaza, com uma garota de 17 anos chamada Tal. Ela começa a escrever, sem saber por quê, impressionada com um atentado de um homem-bomba que se explodiu em um café perto de sua casa. No local, morrera uma noiva que se casaria dali a algumas horas, e mais pessoas que estavam lá. 
  Tal, então, começa a perguntar-se como seria se soubesse que lhe restariam somente alguns anos de vida, pois a noiva tinha vinte anos. Constata que a vida de uma pessoa depende de decidir se vai ou não a um lugar.  
  
  "Quando o medo volta, como nesses últimos dias, tenho a impressão de que todos esquecemos quem somos. Nos vemos como vítimas em potencial, como corpos que podem ficar ensanguentados e inertes só porque alguém escolheu explodir-se bem ao lado. Tenho vontade de saber quem eu sou, de que sou feita. Por que minha morte seria diferente de qualquer outra? Se eu dissesse isso na frente de meus pais, ou de meus amigos, eles arregalariam os olhos e delicadamente diriam que estou precisando descansar. Deve ser por isso que decidi escrever: para não assustar os outros com o que tenho dentro da cabeça, e para que não decretem impulsivamente que fiquei louca." 

(UMA GARRAFA NO MAR DE GAZA, p. 12-13)


  Tem uma ideia. Escrever uma carta a alguém, de preferência, outra garota, que viva em Gaza e tenha a mesma idade, para saber como é a vida lá. Pede para seu irmão Eytan colocar uma garrafa com a carta no mar de Gaza, mas ele não o faz. Coloca-a na areia.


  Ao receber a resposta, ela se surpreende. A pessoa do outro lado é um garoto, teimoso em não revelar o nome, e com um humor singular, além de escrever em hebraico.
  Primeiro, ele responde sem exatamente responder à carta de Tal. Diz que ela escreve bem, embora com ideias esperançosas demais para a situação presente.
  Contra sua vontade, Gazaman gosta do modo como Tal se expressa. Impressiona-se com a sua sinceridade, e frequentemente sente raiva.

  "Pronto. Eu logo me irrito quando penso demais, mas não quero parar de pensar. Minha cabeça é o único lugar onde nenhum soldado das Forças de Defesa de Israel, nenhum sujeito do Hamas, nem meu pai nem minha mãe podem entrar. Minha cabeça é minha casa, minha única casa, pequena demais para tudo o que coloco lá dentro, e foi por isso que comecei a escrever, há muitos anos (...) Me faz bem, me alivia um pouco. Há gente demais que eu detesto, gente demais que me impede de viver, e placas vermelhas inexistentes, mas que vejo por toda parte. Nelas, está escrito: TUDO É PROIBIDO." (p. 32)



  Nessa correspondência, arriscada principalmente para o rapaz, pouco a pouco vão opinando e contando o que acontece dos dois lados, e devagar cada um se percebe preocupado com o outro, achando até que se apaixonaram.


  "Estou cansado. Cansado de ouvir as sirenes das ambulâncias, os gritos da multidão raivosa, as manifestações dos encapuzados do Hamas que convocam à guerra santa, os aviões e os helicópteros que patrulham acima de nossas cabeças. Cansado de ouvir os rádios e as televisões ligadas dia e noite. Eles falam de mortos, de feridos, de casas destruídas. Dizem que a culpa é da América, tão poderosa que poderia resolver tudo, se realmente quisesse. Prometem vingança.São promessas horríveis, um ódio horrível, você não consegue imaginar como o ódio me cansa, me esgota, Tal. (...) Não estou morto. Não estou ferido. Só estou muito cansado." (p. 67-68) 



  Falam de seus sonhos e medos em cada e-mail. Correspondem-se por pouco tempo, mas o bastante para terem confiança um no outro.

  É maravilhosa a maneira como o livro é escrito, difícil selecionar um só trecho, porque cada frase é importante.
  Mais um livro falando de guerras que ensina o quanto é doloroso para os dois lados, porque há pessoas inocentes que morrem todos os dias por causa do fanatismo de alguns que têm ódio a alguém que não compartilha de seus ideais.

Título Original: Une bouteille dans la mer de Gaza
Autora: Valérie Zenatti
Tradução: Julia da Rosa Simões 
Editora: Companhia das Letras (Selo Seguinte)
Ano de Publicação: 2013, 1ª edição
Páginas: 128
ISBN: 978-85-65765-02-2

Classificação: 



  



Sobre a autora




Valérie Zenatti nasceu em Nice, em 1970, mas passou toda a adolescência em Israel. É tradutora, roteirista e publicou quinze livros. Uma garrafa no mar de Gaza foi traduzido para mais de doze línguas, recebeu inúmeros prêmios e foi adaptado para o cinema.









   

2 comentários :

  1. Ai eu quero esse livro *-* Esses trechos que você selecionou me fizeram querer ainda mais. Ele deve ser aquele tipo de livro que ao mesmo tempo que entretém, também ensina sobre uma cultura ou região. Por isso o quero tanto rsrs O único probleminha que vejo é que ele é bem curtinho.

    Abraços!
    @BooksRain

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    Respostas
    1. Oi, Isabela!

      Não tem problema quanto ao tamanho dele, adorei cada pedaço. É MUITO difícil selecionar um trecho. Beijos!

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