[RESENHA] De Amor e Trevas - Amós Oz



De Amor e Trevas não é uma biografia comum. Primeiro livro de Amós Oz que me aventurei a ler, me conquistou desde as primeiras páginas, tanto com as tragédias quanto com situações cômicas.
 Abandonei-o por dois anos, sem tê-lo concluído, só faltando duzentas páginas para o fim, por não suportar ler as muitas dificuldades que ele passou, também falando da política no começo do século XX e relembrando o início do nazismo, assim como a ditadura de Stalin.

“Quando eu era pequeno, queria ser livro quando crescesse. Não escritor de livros, livro mesmo. Gente se pode matar como formigas. Escritores também não são tão difíceis de matar. Mas os livros, mesmo se os destruirmos metodicamente, sempre há chance de sobrar algum, nem que seja apenas um exemplar, a continuar sua vida de prateleira, eterna, discreta e silenciosa em uma estante esquecida de alguma biblioteca remota em Reykjavik, em Valladolid ou em Vancouver.” (p. 30-31)


 Repleto de poesia, graça e drama, nesta narrativa única lemos a vida do autor desde os cinco anos de idade, contando situações que seus pais e sua família passaram vivendo em Israel nos anos 30.


 “Na minha infância, quando toda Jerusalém se comprimia em apartamentos de quarto e sala ou dois quartos, com uma parede divisória separando famílias que brigavam entre si, a mansão do professor Klausner me parecia o palácio de um sultão, ou o palácio dos césares em Roma, e, mais de uma vez, eu imaginava o resurgimento do reino de Davi, com batalhões de sentinelas judias montando guarda em seu palácio de Talpiót. Em 1949, quando Menahem Begin, líder da oposição na Knesset, apresentou em nome do partido Herut a candidatura de tio Yossef para disputar com Chaim Weizmann a presidência do Estado de Israel, imaginei o palácio do governo de meu tio em Talpiót, rodeado por tropas hebréias de todos os lados, e dois sentinelas, com uniformes de galões reluzentes, postados dos dois lados do portão sob um cartaz que assegurava aos passantes que judaísmo e humanismo nunca iriam se opor um ao outro, mas seriam um só.” (p. 67)


 Com uma prosa rara, Oz nos dá o presente de suas palavras, sua vida em meio aos livros de seu pai, sua paixão pela literatura, seus primeiros amores, suas descobertas, sua mãe e seus tios, que lhe ensinaram tudo o que passou a saber.


“Quando a gente gosta de verdade de alguém - havia um ditado assim - então gostamos até de seu lenço.” (p. 215)


 Apesar de não ter concluído a leitura, amei cada trecho, e planejo retomá-la. De Amor e Trevas é um livro que deve ser lido por todo leitor que queira ter a oportunidade de conhecer um relato real sobre a singularidade com a qual uma criança é capaz de ver o mundo em meio ao caos da guerra, à monstruosidade do preconceito e à dor da separação, e ainda assim sonha acordada e transforma todo mal em esperança, e cresce um homem cheio de fé na humanidade.

P.S.: A classificação de dez conchas e dois corações não é brincadeira. Só cinco é pouco.


Título Original: Sipur Al Ahava Vechoshech
שיפור על אהבה וחושך
Autor: Amós Oz
Tradução: Milton Lando
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 615
Ano de Publicação: 2005
ISBN: 85-359-0647-9

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3 comentários :

  1. Já me apaixonei, será que as grandes marcas como Saraiva e Submarino têm o livro para ser adquirido? Sou apaixonada pelas histórias de Guerra, pois assim consigo compreender o mundo de uma forma mais aberta, também gosto do pov das crianças porque mostra alguém que não teve qualquer experiencia de vida há não ser aquela. Obrigada por compartilhar <3

    Beijos.

    estanteideal.blogspot.com

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    1. Oi, Isabella! Também sou apaixonada por histórias de Guerra, e a autobiografia do Amós é um tesouro, realmente. Leia, você não vai se arrepender! Conheço algumas poucas autobiografias, fora essa, que acho que podem te interessar. :) Tem A Noite, de Elie Wiesel, e É Isto um Homem? de Primo Levi. O de Primo Levi eu não li ainda, mas é uma de minhas metas desse ano. Eu não sei se tem De Amor e Trevas no Submarino, mas pode ter na Saraiva, procura que vale muito a pena! Ah, você já leu Maus, de Art Spiegelman? É da Companhia também, e é uma HQ de história real sobre os pais do autor na guerra. Obrigada <3 Beijos!

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  2. Le gostei bastante do que li aqui, mas não sou grande fã de biografias e tenho recewio da leitura ser arrastada. Sua resenha está maravilhosamente bem construída. Quando terminar de ler me conte sua opinião geral sobre o livro :)

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