Iluminações - Jean-Nicholas Arthur Rimbaud


Iluminações (Extratos)


«(...) 


Carta Dita do Vidente


Rimbaud a Paul Demeny
Charleville, 15 de Maio de 1871.


Resolvi lhe dar uma hora de literatura nova; começo imediatamente com um salmo de atualidade:


Canto de Guerra Parisiense


A Primavera é evidente
Pois do coração das Propriedades verdes
O voo de Thiers e de Picard
Deixa seus esplendores bem em frente! 


Ô Maio! que delirantes anjinhos!
Sèvres, Meudon, Bagneux, Asnières,
Ouçam os bem-vindos contra Paris
Semear coisas primaveris!


Eles têm quepe, espada e tambor
Não a velha caixa de velas
E suas canoas sem temor
Cruzam o lago de águas vermelhas!


Mais do que nunca somos devassos
Quando caem em nossos lares
As bombas amarelos aços
Nas madrugadas particulares!


Thiers e Picard são amores
Que colhem girassóis 
Com petróleo pintam Corots
Suas tropas zumbem nos paióis...


São amigos do grande truque
E deitado nas flores, Favre
Corta cebolas para chorar, 
Cheira pimenta e mostra o muque!


A grande cidade tem a rua quente
Apesar das duchas de petróleo
E realmente precisaremos
Sacudir o vosso espólio...


E os Rurais descansando
Agachados ou de quatro,
Ainda ouvirão galhos quebrando
Nos vermelhos combates!


- Eis alguma prosa sobre o futuro da poesia - (...) O primeiro estudo do homem que quer ser poeta é o seu próprio conhecimento, inteiro; ele procura a sua alma, a inspeciona, a tenta, a aprende. Quando a sabe, deve cultivá-la; isto parece simples: em todo cérebro há um desenvolvimento natural; tantos egoístas se proclamam autores; há bem outros que se atribuem o seu progresso intelectual! - Mas se trata de fazer a alma monstruosa: como os comprachicos, pois! (...) 
Digo que é preciso ser vidente, se fazer vidente. 
O Poeta se faz vidente através de um longo, imenso e refletido desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; ele procura ele mesmo, ele esgota nele todos os venenos, para só guardar as quintessências. Indizível tortura onde ele se torna entre todos o grande doente, o grande criminoso, o grande maldito, - e o supremo Sábio! - Pois ele chega ao desconhecido! Porque ele cultivou a sua alma, já mais rica do que nenhum! (...)Portanto o poeta é mesmo um ladrão de fogo. 
Ele é encarregado da humanidade, dos animais até; ele deverá fazer sentir, apalpar, escutar as suas invenções; se o que ele traz de tem forma, ele dá forma; se é informe, ele dá informe. Encontrar uma língua;
- De resto, toda palavra sendo ideia, o tempo de uma linguagem universal virá! (...) Esta língua será alma para alma, resumindo tudo, perfumes, sons, cores, pensamento agarrando o pensamento e puxando. O poeta definiria a quantidade de desconhecido nascendo em seu tempo na alma universal: ele daria mais - que a fórmula de seu pensamento, que a partitura de sua marcha ao Progresso! Enormidade que se torna norma, absorvida por todos, ele seria mesmo um multiplicador de progresso! (...)
A arte eterna teria as suas funções, como os poetas são cidadãos. A Poesia não ritmará mais a ação, ela estará na frente.
Estes poetas serão! Quando será derrubada a infinita servidão da mulher, quando ela viverá para ela e por ela, o homem, - até agora abominável - tendo-a despedida, ela será poeta, ela também! A mulher descobrirá desconhecido! Seus mundos de ideia divergirão dos nossos? Ela encontrará coisas estranhas, insondáveis, repugnantes, deliciosas; nós as teremos, nós as entenderemos.»



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