Parte III, Cap. 49 - Como um Romance

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(...)
 Onde encontrar o tempo para ler?
 Grave problema.
 Que não é um só.
 A partir do momento em que se coloca o problema do tempo para ler, é porque a vontade não está lá. Porque, se pensarmos bem, ninguém jamais tem tempo para ler. Nem pequenos, nem adolescentes, nem grandes. A vida é um entrave permanente à leitura.
 — Ler? Queria muito, mas o trabalho, as crianças, a casa, não tenho mais tempo...
 — Invejo você por ter tempo para ler! E por que é que essa aqui que trabalha, faz compras, cria filhos, dirige seu carro, ama três homens, vai ao dentista, muda na semana que vem, encontra tempo para ler, e esse casto celibatário que vive de rendas não?
 O tempo para ler é sempre um tempo roubado. (Tanto como o tempo para escrever, aliás, ou o tempo para amar.)
 Roubado a quê?
 Digamos, à obrigação de viver.
 É sem dúvida por essa razão que se encontra no metrô — símbolo refletido da dita obrigação — a maior biblioteca do mundo.
 O tempo para ler, como o tempo para amar, dilata o tempo para viver.
 Se tivéssemos que olhar o amor do ponto de vista de nosso tempo disponível, quem se arriscaria?
 Quem é que tem tempo para se enamorar? E no entanto, alguém já viu um enamorado que não tenha tempo para amar?
 Eu nunca tive tempo para ler, mas nada, jamais, pôde me impedir de terminar um romance de que eu gostasse.
 A leitura não depende da organização do tempo social, ela é, como o amor, uma maneira de ser.
 A questão não é de saber se tenho tempo para ler ou não (tempo que, aliás, ninguém me dará), mas se me ofereço ou não à felicidade de ser leitor.
 Discussão que Topete e Botas resume num slogan demolidor:
 — O tempo para ler? Eu tenho no meu bolso!
 À vista do livro que ele tira (um Jim Harrison, 10/18), Grifes aprova, pensativo:
 — É, quando a gente compra um blusão, o importante é que os bolsos sejam do formato certo!

Daniel Pennac
Como um Romance – págs. — 118 — 119 —

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