Ariano Suassuna e o Reino da Acauhan

Iluminura de Ariano Suassuna
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A João Suassuna

Aqui morava um Rei, quando eu menino:
vestia ouro e Castanho no gibão.
Pedra da sorte sobre o meu Destino, 
pulsava, junto ao meu, seu Coração.

Para mim, seu Cantar era divino,
quando, ao som da Viola e do bordão,
cantava com voz rouca o Desatino,
o Sangue, o riso e as mortes do Sertão.

Mas mataram meu Pai. Desde esse dia,
eu me vi, como um Cego, sem meu Guia,
que se foi para o Sol, transfigurado.

Sua Efígie me queima. Eu sou a Presa, 
Ele, a Brasa que impele ao Fogo, acesa,
Espada de ouro em Pasto ensangüentado.
                            
  *

 Infância

Sem lei nem Rei, me vi arremessado,
bem menino, a um Planalto pedregoso,
Cambaleando, cego, ao sol do Acaso,
vi o mundo rugir, Tigre maldoso.

O cantar do Sertão, Rifle apontado,
vinha malhar seu Corpo furioso.
Era o Canto demente, sufocado,
rugido nos Caminhos sem repouso.

E veio o Sonho: e foi despedaçado.
E veio o Sangue: o Marco iluminado,
a luta extraviada e a minha Grei.

Tudo apontava o Sol: Fiquei embaixo,
na Cadeia em que estive e em que me acho.
a sonhar e a cantar, sem lei nem Rei.

 *

  Dom

Se a visagem da Morte - a dura Garra - 
para sempre meu Sangue penetrou,
deu-me a Fonte-sagrada, e, sem amarras,
esta Voz em meu sangue se selou.

A visão do Nefasto, sol da Amarga,
todo o sangue do Mundo envenenou.
Nunca mais fui o mesmo, pois a Marca,
ao sol cruel do Sono, me apontou.

Mas, se fui para sempre assinalado,
achei o Veio, a chama do Tesouro,
que a Morte é sonho, a Vida é fogo e treino.

E, se o selo do Sol me tem, marcado,
me deu o Dom de, em três Bocais-de-ouro,
fazer ouvir as trompas do meu Reino.

   Ariano Suassuna (1927-)


CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, nº 10, nov. 2000. pp. 140-143.

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