O Pasto Iluminado ou A Sagração do Poeta Brasileiro desconhecido

Iluminogravura de Ariano Suassuna
http://www.wscom.com.br/diversao/noticia/diversao-noticias/ARIANO+SUASSUNA+ABRE+EXPOSICAO+NA-9556


Por Carlos Newton Júnior


 Aclamado como um dos maiores dramaturgos e romancistas de língua portuguesa, Ariano Suassuna continua, entre nós, infelizmente, tanto da parte do público quanto da crítica, quase desconhecido como poeta. De fato, poucos sabem que foi através de um poema - "Noturno", publicado no Jornal do Commercio, do Recife, em 7 de outubro de 1945 - que o autor, aos 18 anos de idade, se iniciou na vida literária que, daí até 1947, ano em que escreve sua primeira peça de teatro, Uma mulher vestida de sol, diversos poemas seus foram publicados em suplementos literários e revistas de cultura, dentre as quais pode-se destacar a revista Estudantes, da Faculdade de Direito do Recife; que, muito embora tenha alcançado o merecido reconhecimento no campo do teatro e do romance, Suassuna jamais abandonou a poesia.
  Pode-se dizer, de certo modo, que a culpa é do próprio Suassuna, que jamais se empenhou junto aos editores para publicar seus poemas. Ora, isento de vaidades inchadas, Suassuna é daqueles raros escritores conscientes de que o fundamental de sua obra realiza-se com lápis e papel. Tanto isso é verdade que ele continua, ainda hoje, escrevendo como sempre escreveu, ou seja, à mão, sem jamais ter se deixado seduzir pelas "facilidades" da máquina de escrever elétrica ou do computador - e creio mesmo que, no seu caso, em vez de lhe trazer benefícios, esses equipamentos só fariam é quebrar a ambiência ritualística ao seu processo de criação. De modo contrário ao que ocorre com aqueles que procuram o sucesso fácil, e não o êxito verdadeiro, Suassuna não se preocupa em editar porque sabe que a substância da sua obra é feita de futuro, não se encontrando, portanto, vulnerável ao escopro e ao esmeril do tempo. Assim, com ou sem perspectiva de publicação, é a mesma a alegria com que ele se debruça sobre o papel em branco, para realizar sua missão e vocação na festa da Literatura.
  Por outro lado, há muito o autor vem chamando a atenção dos seus leitores e da crítica, de um modo geral, não só para sua produção em poesia, mas, principalmente, para a importância dessa produção no entendimento do conjunto de sua obra. Suassuna já disse, inúmeras vezes, em entrevistas e artigos que sua poesia é a fonte profunda de tudo o que ele escreve. Parece-me que o descuido, portanto, deve ser atribuído muito mais aos editores e à crítica do que propriamente ao autor. Os editores sabem que poesia vende pouco - sobretudo uma poesia em boa parte hermética como a de Suassuna, que requer, para ser melhor compreendida, alguma familiaridade com o universo literário do autor. A crítica, por sua vez, quase sempre fecha os olhos para o insólito e o verdadeiramente novo, deixando à História da Literatura a tarefa de corrigir, no futuro, seus erros e omissões. De modo que, nesses tempos de globalização e de conseqüente massificação cultural, sempre que me deparo com o silêncio em torno de um poeta com a dimensão de Suassuna (ou com a dimensão daquele outro grande poeta brasileiro que é Foed Castro Chamma, cujo ostracismo editorial dos últimos anos chega a ser um verdadeiro crime contra os leitores de poesia), lembro, com pesar, da seguinte passagem de O arco e a lira, de Octavio Paz: "O cansaço de uma sociedade não implica necessariamente a extinção das artes nem provoca o silêncio do poeta. O mais provável é que ocorra o contrário: suscita o aparecimento de poetas e obras solitárias. Cada vez que surge um grande poeta hermético ou movimentos de poesia em rebelião contra os valores de uma sociedade determinada, deve-se suspeitar  de que essa sociedade, não a poesia, padece de males incuráveis."
  Seja como for, o resultado desse descaso editorial em relação à poesia de Suassuna é o que se vê: sem contar o volume de poemas recentemente publicado pela Universidade Federal de Pernambuco, que tive a honra e o privilégio de organizar, a poesia do autor do Auto da Compadecida e do Romance d'A Pedra do Reino permanece praticamente inédita em livro. Em compensação, os raros críticos que chegaram a se debruçar sobre essa poesia foram unânimes em realçar sua qualidade fora do comum, qualidade que faz dela, sem favor algum, ponto alto da literatura brasileira e universal. Talvez o mais recente pronunciamento a esse respeito tenha sido o do crítico e também poeta português Paulo Alexandre Esteves Borges. Referindo-se, num artigo, às iluminogravuras de Ariano Suassuna (trabalho em que o autor alia suas qualidades de poeta às de artista plástico), Borges não deixa de revelar seu entusiasmo poe escrever sobre "algo de venerável", de uma beleza fascinante, "estranha, bárbara e mesmo monstruosa", cuja fruição é capaz de proporcionar uma "perturbação sagrada" e fazer com que os leitores sejam "arrebatados num raro momento do eterno regresso de uma arte verdadeiramente religiosa".
  Se me fosse possível falar em termos de hierarquia, ao me referir às muitas portas de entrada que o reino das artes possui, diria que Suassuna, ao escrever seus primeiros poemas, entrou logo pela porta principal. Sua poesia não tem altos e baixos, e seus poemas de juventude já demonstram a técnica precisa que irá caracterizar toda a sua produção futura. Logo de início, Suassuna demonstra não concordar com alguns pressupostos do Modernismo, como a "liberdade'' do verso e da forma. De fato, considerando sua produção poética como um todo, em poucas ocasiões o autor fará uso do verso não metrificado ou escreverá poemas sem rima e estrofação regulares. Por outro lado, como não poderia deixar de ser , ouve-se, nesses primeiros poemas, o eco dos seus mestres de então, alguns que o acompanharão por toda a vida - e aí já não mais como mestres, e sim como companheiros de jornada, cada vez mais silenciosos. Quando adolescente, Suassuna já era um leitor fervoroso de Camões e Dante, além de admirador dos poetas românticos ingleses, notadamente de Shelley e Keats. O primeiro contato com a poesia modernista brasileira deu-se também por essa época, através dos versos de Ascenso Ferreira e Jorge de Lima musicados por Lourenço Barbosa, o Capiba, que antes de ser seu amigo já o era de seus irmãos mais velhos.
  Ainda estudante secundarista, Suassuna toma conhecimento da poesia de Federico García Lorca. A obra de Lorca representa um verdadeiro deslumbramento para o jovem poeta paraibano, que se depara, então, com um grande escritor erudito cuja fonte de inspiração transbordava de uma água cristalina e de veio popular, jorrada principalmente através do Romance ibérico.
  Ora: tendo passado a infância no sertão, Suassuna há muito era um apaixonado pelo Romanceiro popular nordestino e outras manifestações de nossa arte popular, que conhecia desde menino. A partir da poesia de Lorca, cujas paisagens eram povoadas de ciganos, bois e cavalos, Suassuna percebe que poderia fazer, em relação ao sertão do Nordeste Brasileiro, o que Lorca fazia em relação ao mundo rural da Espanha - ou seja: falar com o sangue do que lhe era tão familiar para ser compreendido pela comunidade da raça humana.
  Ao ingressar na Faculdade de Direito do Recife, em 1946, Suassuna liga-se ao grupo de estudantes que irá retomar, naquele mesmo ano, sob a liderança de Hermilo Borba Filho, o Teatro do Estudante de Pernambuco (TEP). Uma retomada sob nova inspiração teórica, direcionada sobretudo para a pesquisa em prol de um teatro brasileiro novo, de raízes nordestinas e populares. Através de Hermilo, de quem se tornará grande amigo, Suassuna passa a conhecer, também, o teatro de Lorca, estímulo que lhe faltava para que desse início à sua carreira de dramaturgo. Durante a existência do TEP, de 1946 a 1952, a produção poética de Suassuna acompanha, em extensão, sua produção no campo do teatro. O estudo aprofundado da poesia popular passa a ser, então, uma constante em sua vida, até porque é partindo principalmente dos folhetos do Romanceiro popular nordestino que ele vai encontrar o caminho para criar toda a sua obra teatral. Datam de 1946 a 1948 seus primeiros poemas ligados a este Romanceiro, como "A morte do touro Mão de Pau", "Beira-Mar'', ''Os Guabirabas'', ''Encontro'', ''A barca do céu'', entre outros. A rima toante, às vezes usada nesses poemas, é influência do Romanceiro ibérico; por outro lado, em vez da quadra ibérica (quatro versos de sete sílabas, rimadas em ABCB), Ariano dá preferência à sextilha, ou repente, a estrofe mais usada pelos cantadores do sertão nordestino, formada por seis versos de sete sílabas, rimadas em ABCBDB. Vejamos as duas primeiras estofes de "Os Guabirabas", poema escrito todo em sextilhas:

Lá vai Cirino na estrada,
em seu cavalo Alazão.
Cascos ferrados, nas pedras,
chispando Fagulhas vão,
na roseta das Esporas,
na Lança de seu ferrão.

Cirino, cuida na vida,
cuida nas pedras da Estrada!
Não foste há pouco avisado
de que a vida é uma emboscada?
Não durmas tendo inimigo,
Cirino da Guabiraba!

  O fato de Ariano Suassuna ter estreado como poeta em 1945, e com uma poesia em que jamais predominou o verso livre, pode levar alguém mais apressado a achar que ele se encontrava em sintonia com os poetas da chamada "Geração de 45". Em parte isto é verdade. Existe, na poesia do autor, uma certa identificação com a poesia da ''Geração de 45'', principalmente no apego à disciplina da expressão poética. Mas é preciso deixar claro que a poesia de Suassuna, desde o início, trilhou caminhos muito particulares, principalmente a partir do momento em que o escritor procura vincular sua produção de poeta erudito ao Romanceiro popular nordestino. Nas muitas incursões que empreende pelo campo da poesia, Suassuna exercita-se com diversas formas poéticas, tanto as da tradição erudita quanto as do nosso Romanceiro, a ponto de trabalhar um soneto com a mesma naturalidade com que trabalha um ''martelo agalopado'', um ''galope à beira-mar'' ou um ''repente''. Parece-me, aliás, que aquilo que Suassuna afirmou a propósito da poesia de Cecília Meireles pode, em parte, ser aplicado à sua própria poesia: ''[...] enquanto os Modernistas Ortodoxos empreendiam uma ruptura total, meio de 'Vanguarda' e anedótica com a Tradição, a grande escritora do 'Romanceiro da Inconfidência' representa não uma ruptura mas sim um aprofundamento, uma renovação e uma recriação de certas experiências simbolistas, isto pelo caminho, aparentemente paradoxal e 'reacionário', do mergulho nas raízes antigas, no passado ibérico e no Romanceiro medieval português".
(...)
(Em edição) 



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